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terça-feira, 26 de maio de 2015

Dez discos de metal lançados em abril que merecem sua atenção (com bônus)


Por Rodrigo Carvalho 

Abril foi aquele mês em que mais estive fora do mundo musical. Não por acaso, quando chegou o momento de compilar essa lista, mal encontrava discos de qualidade o suficiente para metade dela.

A paranoia começou a bater e então cavar ainda mais fundo do que o normal parecia ser a última saída, e que grata surpresa: por alguma razão, vários desses álbuns sequer receberam pouco mais do que menção pela imprensa especializada mundo afora, o que por si só é uma injustiça. Basta uma rápida audição para descobrir por que.

Nota: os lançamentos de black metal continuam com tudo, mas o mês de abril foi muito, mas muito mais dinâmico do que os anteriores – e isso só torna as coisas ainda mais incríveis.

Nota 2: outro álbum que mereceria um espaço aqui e já foi resenhado pelo colega Giovanni Cabral é o Crooked Doors, do Royal Thunder. Se vocês gostaram do Yellow & Green, do Baroness (e teve alguém que não gostou?), esse disco é mais do que indicado.

Nota 3: Fora do metal, um trabalho que definitivamente não pode ser esquecido é o Salome, do Marriages. É intrigante, viajante, que flutua em algum lugar entre os planos do indie e do post-rock.

Enfim, vamos lá.


Klone – Here Comes the Sun

Como contemplar o nascer do sol ao sair de um lago no qual você quase acabou de se afogar, Here Comes the Sun é alívio semelhante ao primeiro inspirar de ar depois do pânico em águas geladas. Cada vez mais distante do prog groove tipicamente francês (Gojira, Hacride e afins), o Klone deixa a violência de lado em nome da serenidade do raiar de um novo dia muito mais tranqüilo, uma reflexão intimista fundada no prog metal tomado post-rock de ritmos quase ritualísticos.


Kontinuum – Kyrr 

Um dos responsáveis por atrair o mundo para a pequena e isolada ilha de gelo do norte com a intrigante amálgama de black metal e alternative rock de Earth Blood Magic em 2012, os islandeses do Kontinuum continuam sua caminhada através das desoladas paisagens mortalmente congelantes, tomados por uma vertigem que cresce enquanto a sensibilidade física vai diminuindo. Uma vertigem que transporta a mente pelo doom, folk, gothic rock, post-punk ao sobrevoar todos os planos de uma terra única: rápida, sem limiares e hipnotizante.


Minsk – The Crash and the Draw

Um imperador que abandona seu território e seu povo em busca da iluminação espiritual, o Minsk permaneceu desaparecido por longos seis anos. The Crash and the Drew é como o retorno de um homem que passou por uma jornada indescritível, e agora reivindica o trono de uma terra em desgraça. A identidade é a mesma, mas o sludge post-metal progressivo parece ainda mais rico em detalhes e em sentimentos, em um nível claramente acima de muitos de seus semelhantes.


Monolord – Vænir

Basta o primeiro riff de Vænir para você perceber qual a dimensão o afundar no maior lago da Suécia irá lhe transportar: um lugar ao mesmo tempo simples e extremamente distorcido em suas beiradas, onde todas as coisas se movem na velocidade da própria translação da Terra, mas de pressão tão absurda sobre os ombros que chegam a deixar um gosto salobro na boca tamanho o esforço para se mover. O trio estabelece de uma vez por todas o seu pé no legado deixado pelos criadores deste cenário, como Electric Wizard e Sleep, nada disposto em sair do eixo. E não há nada errado com isso.


Shining - IX - Everyone, Everything, Everywhere, Ends

Niklas Kvarforth pode ser acusado de muitas coisas, e nenhuma delas é exatamente positiva. Tire o histórico de perturbação mental, as sequelas pelo abuso de drogas, as controvérsias de apologia ao suicídio e as agressões gratuitas, e você tem uma das mais criativas mentes do heavy metal. Tenha ele se livrado de alguns demônios ou não, o Shining tem trilhado o caminho da iluminação a cada novo trabalho, e IX - Everyone, Everything, Everywhere, Ends talvez seja o mais centrado, pacífico e sensato trabalho dos suecos. Porém, ainda oscila perigosamente, sofrendo os efeitos de uma abstinência que vai muito além da música.


Sigh – Graveward

Adentrar a mente doentia do Sigh é como ser convidado para um espetáculo em um circo freakshow itinerante, que viaja pelas eras através de infinitas dimensões, com o risco de ficar preso eternamente e tornar-se parte dele. Uma hora você está diante do remanescente black metal de seus primeiros álbuns, e quando menos espera é bombeardo por passagens sinfônicas e neoclássicas, um saxofone frenético, corais fantasmagóricos e vozes ensandecidas, música pop e tradicional japonesa, sintetizadores setentistas, riffs thrash, um caos formado abruptamente e sem o menor aviso ou cuidado com a sanidade do espectador. Se não é mais uma evidência de todas as possibilidades inventivas do heavy metal, difícil dizer o que é.


Thirdear – Resilience

Pode comparar o som dessa banda curitibana o quanto for com o Meshuggah. A influência está ali, com certeza, mas a névoa que a sua sonoridade expele em Resilience cria ilusões muito mais complexas e além do que se espera.


Tribulation – The Children of the Night

Uma banda sueca que resgata o heavy metal setentista para usar como base de suas histórias mirabolantes de terror, inserindo interessantes elementos que vão da música extrema ao gothic e ao pop, dando uma aura teatral para toda a sua obra. Apesar da semelhança, não, não é o Ghost, mas sim o Tribulation. The Children of the Night é o seu terceiro álbum e gerou um hype instantâneo no mês passado com o equilíbrio entre o black/death/thrash apresentado no primeiro disco e o mais progressivo/doom do segundo, com uma veia intencionalmente retrógrada e extremamente benéfica. Justifica os murmúrios que levantou? Sem a menor dúvida.


While She Sleeps – Brainwashed

Apesar de uma análise mais cuidadosa ser necessária, a verdade é que o metalcore americano apresenta muitas diferenças em relação ao seu irmão britânico. Enquanto o primeiro está reflexivo, preocupado com suas contas e as próprias questões internas e sociais de seu bairro, o segundo está naquela fase em que vive ao máximo, quer saber de tudo e tem uma visão nada boa do mundo. O While She Sleeps passou por uma fase em que realmente não estava nada indo bem, e todas as suas raivas e frustrações parece ter sido o que precisavam para dar a Brainwashed a devida importância, refletindo muito da negatividade desse período e a melancolia tipicamente inglesa e convertendo em uma voz inesperadamente impossível de não ser ouvida.


Wilderun – Sleep at the Edge of the Earth

Imagine um folk metal que em vez de recorrer às sonoridades nórdicas buscasse inspiração em suas raízes irlandesas e escocesas. É o que os americanos do Wilderun fazem em seu segundo álbum, Sleep at the Edge of the Earth, uma ode a natureza e a história como deve ser, porém com a tradicional música dos antepassados dos americanos sendo o pilar. Apesar de comparações com o Opeth serem quase inevitáveis, é importante notar que talvez a referência mais próxima seja o Suidakra, para exemplificar. Ou talvez, como o Mumford & Sons soaria se fosse uma banda de metal (muito, mas muito mais) criativa.

Ah sim, mais alguns álbuns que vocês deveriam dar uma conferida:


Anekdoten – Until All the Ghosts Are Gone

O Anekdoten ainda estava preso na Terra de tantas coisas inacabadas que deixou. Until All the Ghosts Are Gone representa muito mais um renascimento do que uma libertação.


Dance Gavin Dance – Instant Gratification

Alguém questionou alguma vez se o post-hardcore poderia ser tão esquizofrênico e excêntrico sem abandonar a veia pop ou adentrar os campos do extremo?


Dopethrone – Hochelaga

“Chameleon Witch”, “Vagabong” e “Scum Fuck Blues”. Evidências mais do que arrastadas de que o colosso permanece no mesmo movimento.


Fister – IV 

Uma música. 44 minutos. Imensuráveis toneladas de riffs e opressivas atmosferas pantanescas. Zero chance de sair ileso ou limpo.


Noisem – Blossoming Decay

Depois desse disco a única coisa que sobra são os dentes no chão e o desvio incorrigível na cervical.


Lancer – Second Storm

Se Edguy e Gamma Ray não chamam a sua atenção, talvez este robô avestruz assassino chame (Alguém disse Megaman X2? Alguém?)


Luciferian Light Orchestra – Luciferian Light Orchestra

O antepassado ocultista e setentista do Therion. Você provavelmente sabe exatamente como soa.


Sulphur Aeon – Gateway to the Antisphere

Death metal tão profundo quanto o portal que liga a nossa dimensão ao dos antigos deuses abissais.


Wovoka – Saros 

Estabelecendo mais uma vez como o híbrido de post-metal e sludge consegue ser reconfortante à alma e ao coração dos atormentados.


Unleashed – Dawn of the Nine

Apenas mais um item para você colocar na discografia básica de metal escandinavo, pequeno viking.