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quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Resenha: Tiken Jah Fakoly – Racines


Nascido em Odienné, no noroeste da Costa do Marfim, Tiken Jah Fakoly, 47, é daqueles músicos envolvidos com a cultura e a política locais. Por exemplo, em 1993, lançou um disco inteiro sobre a vida de Félix Houphouët-Boigny, primeiro presidente eleito do país. Isso gerou seu primeiro sucesso e popularidade entre os jovens desde então.

Ao tocar em pontos delicados, como justiça social e ressurgimento econômico da África, ele desagradou a muitos setores da sociedade e acabou sendo ameaçado de morte algumas vezes ao longo dos últimos 20 anos. Exilado de seu país natal por conta própria, atualmente reside Bamako, no Mali, onde gravou Racines, seu 13º disco de estúdio, cheio de covers de bandas, cantores e músicos negros que lutaram pelos direitos civis em seus respectivos países.

O início na paulada "Is It Because I'm Black?", de Syl Johnson, conta com a participação do cantor Ken Boothe em uma das faixas mais fortes sobre a discriminação racial do tipo (Tell me, it's because of my color?/Something is holding me back/Like a child steeling his first piece of candy/That cost/Even in my corner somewhere I got lost/Something is holding me back/Is it because I'm black?/[I want to know, I want to know]). Na sequência, aparece "Get Up, Stand Up", um clássico do reggae mundial dos Wailers – essa nem precisa de muita explicação, porque fica boa em grande parte dos casos, ainda mais cantada por um dos ícones da luta pelos direitos civis dos negros.

A poesia da letra de "One Step Forward", de Max Romeo, é belíssima e ainda toca em pontos importantes da imigração africana, enquanto "Slavery Days" é outra bem triste e relembra o tempo em que os negros eram escravos e trabalhavam e apanhavam muito quase diariamente. E em "Zimbabwe", Bob Marley pregava a união da África, coisa que Fakoly ainda não viu nesses anos e ainda está longe de ver. As três canções dessa parte do disco são melancólicas e ainda fazem pensar sobre a situação de um continente inteiro.

Puxando mais pelo lado religioso, "Fade Away", um reggae clássico, tem bom ritmo e consegue manter o disco em um bom embalo. Do marfinense Alpha Blondy, "Brigadier Sabari" é a primeira letra que traz o francês e um dos muitos dialetos locais do país no álbum e fala sobre violência policial e, soando como uma imensa coincidência, a seguinte ("Hills And Valleys") é um apelo lírico e recheado de instrumentos locais a Jah, pedindo a libertação do povo.

Desconhecida por mim até então, "Christopher Columbus" é um ótimo reggae e que faz muito sentido quando ele diz que Cristóvão Colombo era um mentiroso quando disse que ele chegou primeiro à Jamaica. Além disso, também tem o fato de fazer uma releitura correta dos acontecimentos em uma faixa leve e até despretensiosa, mas que merece atenção. A luta de um continente é resumida nas ótimas "Police And Thieves" e "African", um clássico da lenda Peter Tosh.

Mesmo sendo um disco de releituras, Tiken Jah Fakoly consegue mostrar a situação da África em letras feitas há 20, 30, 40 anos atrás. É triste saber que muita coisa não mudou, mas ainda existe alguém disposto a mostrá-las e a lutar por elas. E Fakoly, com sua música, pode fazer isso.

Tracklist:

1 - "Is It Because I'm Black?" (feat. Ken Boothe) (Syl Johnson)
2 - "Get Up, Stand Up" (feat. U-Roy) (The Wailers)
3 - "One Step Forward" (feat. Max Romeo) (Max Romeo)
4 - "Slavery Days" (Burning Spear)
5 - "Zimbabwe" (Bob Marley & The Wailers)
6 - "Fade Away" (feat. Jah9) (Junior Byles)
7 - "Brigadier Sabari" (Alpha Blondy)
8 - "Hills And Valleys" (Buju Banton)
9 - "Christopher Columbus" (Burning Spear)
10 - "Police And Thieves" (Junior Murvin)
11 - "African" (Peter Tosh)

Nota: 4/5



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