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segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Resenha: Keith Richards – Crosseyed Heart


Keith Richards é o mais rebelde Rolling Stone vivo. Por tudo que passou, escrito com maestria na autobiografia chamada Vida, ele deveria ser reverenciado como um dos gênios da guitarra que é. Em meio ao possível encerramento das atividades do grupo em breve – eles completaram 50 anos de carreira há três anos e estão no limite físico, muito por conta da idade avançada –, Richards resolveu lançar Crosseyed Heart, terceiro disco solo, o primeiro em 23 anos.

Ele abre o trabalho com "Crosseyed Heart", um blues tão clássico, que só dá para saber que foi gravado recentemente por ser mais limpo do que as canções históricas do gênero geralmente são. Curta e acústica, ela acabou servindo de porta de entrada para o álbum. A seguinte, "Heartstopper", serve para colocar o pessoal para sacudir um pouco o esqueleto.

Cheia de efeitos, principalmente nos instrumentos, "Amnesia” segue a mesma linha da anterior sem tirar nem pôr nada, e "Robbed Blind" é outro blues que não esconde as influências musicais de Richards – os Stones nasceram como uma banda do estilo e, nos anos 1960, tocaram em muitas casas que só recebiam esse tipo de banda. Muito semelhante ao início de “Doom & Gloom”, "Trouble" é a mais ‘stoniana’ entre todas as canções do disco, podendo facilmente ter feito parte de algum momento da banda, ainda mais com o uso e abuso do velho e bom riff de guitarra grudento.

"Love Overdue" é um reggae composto pela lenda jamaicana Gregory ‘Cool Ruler’ Isaacs, morto em 2010 por consequência de um câncer. Morador da Jamaica há alguns anos, Richards, ao que parece, desejava homenagear a nova casa. E, mesmo com altos e baixos, até que ele conseguiu. A próxima, "Nothing On Me", retoma o estilo mais falado do que cantado com sua melodia grudenta e refrão fácil. A melancólica "Suspicious" traz um Richards não querendo diversão, mas propondo uma reflexão ao ouvinte.

Se houvesse a possibilidade de o guitarrista fazer parte de uma banda de baile, certamente ela teria que começar suas apresentações pela ótima "Blues In the Morning" – não sei o motivo, mas a cena do baile em De Volta Para o Futuro me veio na cabeça logo nos primeiros acordes. A pegada pop também tem espaço para mais de uma, no caso a repleta de coros e vocais de apoio "Something For Nothing", já "Illusion" ganha muito na bela participação de Norah Jones, uma contraposição serena ao vocal arrastado e rouco de Richards.

A comovente e quase religiosa "Just a Gift" antecede o clássico "Goodnight Irene", regravada por mais de uma centena de músicos e cantoras ao longo de 82 anos de sua primeira versão, cantada por Huddie 'Lead Belly' Ledbetter. Por fim, uma que soa um improviso gravado ("Substantial Damage") e uma balada (“Lover’s Plea”) fecham o álbum, que traz Keith Richards em um ótimo momento solo e mostra que ele poderia se virar bem como um dos herdeiros do blues, ainda que só por diversão.

Tracklist:

1 - "Crosseyed Heart"
2 - "Heartstopper"
3 - "Amnesia”
4 - "Robbed Blind"
5 - "Trouble"
6 - "Love Overdue" (Gregory Isaacs)
7 - "Nothing On Me"
8 - "Suspicious"
9 - "Blues In the Morning"
10 - "Something For Nothing"
11 - "Illusion" (Keith Richards, Steve Jordan & Norah Jones)
12 - "Just a Gift"
13 - "Goodnight Irene" (Huddie Ledbetter & Alan Lomax)
14 - "Substantial Damage"
15 – “Lover’s Plea”

Nota: 3,5/5



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