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quinta-feira, 26 de março de 2015

Resenha: Marcus Miller - Afrodeezia



Marcus Miller é daqueles nomes que, quando colocado em pauta, dispensa maiores apresentações. Ainda assim, vamos lá: baixista dos bons, já trabalhou com muita – mas muita mesmo – gente, seja atuando como produtor ou músico de estúdio: Miles Davis, Herbie Hancock, Frank Sinatra, Michael Jackson, Wayne Shorter, Chaka Khan, Aretha Franklin, Elton John, entre outros. 

Posta a breve introdução, vamos ao ponto que nos interessa aqui: a carreira solo de Miller – que começou lá em 1983, com o disco Suddenly. Pois bem, eis que estamos em 2015 e o músico acaba de tirar do forno Afrodeezia, sua mais recente obra. Segundo o baixista, a inspiração para o álbum veio dos trabalhos que ele faz com a UNESCO – nos projetos ‘Artist for Peace’ e, especialmente, no ‘Slave Route’. 

Miller decidiu então fazer uma ‘jornada musical’ da África até a América (aqui, a referência é o continente todo, de norte a sul), incorporando um pouco da influência de cada lugar – gravando em diversos lugares com músicos locais – nas canções. “Hylife”, além de contar com o timbre e a técnica característica do músico em um riff inspirado, apresenta influências africanas misturadas com o jazz, dando uma ótima impressão para o ouvinte já na abertura do disco. Em “B’s River”, o baixista executa a introdução com um Gimbri – que, segundo ele, é uma espécie de 'ancestral' do baixo. Depois, a faixa ganha uma levada que mistura sons árabes, latinos e jazz. A fusão de ritmos diferentes funciona muito bem, dando à faixa um groove pra lá de interessante. 

“Preacher’s Kid (Song for William H)” é uma homenagem de Miller ao pai, William Miller (organista de uma igreja e diretor de coral). A faixa, bem ao clima das canções que tocam em igrejas, abre com um coral de vozes femininas, que depois acompanham a harmonia principal. As vozes, então, dão espaço para solos de clarinete, executados pelo próprio Miller, e solos de órgão, tocados por Cory Henry, do Snarky Puppy – músico oriundo de igrejas. No fim, os vocais voltam para encerrar a canção, uma das melhores do álbum.

O samba dá as caras em “We Were There”, parceria do baixista com Djavan. Aqui, Miller dá um show à parte com ‘slaps’ e solos repletos de feeling, enquanto os músicos de apoio – Robert Glasper, no piano Rhodes, entre eles - cuidam da ‘cozinha’. O ritmo é tão contagiante que a vontade é de levantar da cadeira e começar a dançar. “Papa Was a Rolling Stone”, clássico da Motown, é o único cover presente no disco e faz jus à grandeza da canção original, além de contar com belos solos executados pelo baixista.

Na sequência, a delicada “I Still Believe I Hear (Je Crois Entendre Encore)” traz de volta os ritmos árabes e conta com a participação do violoncelista Ben Hong, da filarmônica de Los Angeles, como solista convidado. “Son of Macbeth” leva o ouvinte para o Caribe com sua melodia suingada e é outra faixa que encoraja o mais tímido a arriscar alguns passos. “Prism (Interlude)” é um pequeno trecho de uma jam movida a hip-hop e funk. “Xtraordinary” tem bela melodia e um quê de balada soul, contando com Miller fazendo os vocais, algo que não se ouve o tempo todo.

Fechando o disco, vêm “Water Dance”, com seu baixo funkeado no riff de abertura e recheio com doses generosas de fusion – destaque para os solos de guitarra e de baixo no terço final – e “I Can’t Breathe”, um hip-hop que mistura o velho e o novo (o Gimbri e sintetizadores, só pra ficar em exemplos de instrumentos), contando ainda com participações do produtor e músico Mocean Worker e de Chuck D, líder do Public Enemy.

A ‘viagem musical’ de Marcus Miller deu certo, sem dúvida. Afrodeezia aborda a rota ‘África-América’ de um jeito que resulta em um disco que dá gosto de ouvir, um disco que é uma aula de história da música. Impossível não conceder a nota máxima para este registro. 

Tracklist:

1 – “Hylife”
2 – “B’s River”
3 – “Preacher’s Kid (Song for William H)”
4 – “We Were There”
5 – “Papa Was a Rolling Stone”
6 – “I Still Believe I Hear (Je Crois Entendre Encore)” [feat. Ben Hong]
7 – “Son of Macbeth”
8 – “Prism (Interlude)”
9 – “Xtraordinary” 
10 – “Water Dance”
11 – “I Can’t Breathe” (feat. Chuck D, Mocean Worker)

Nota: 5/5



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