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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Resenha: Slipknot - .5: The Gray Chapter


Por Rodrigo Carvalho

Talvez, a essa altura do campeonato, não seja necessário apresentar a mais bizarra cria de Iowa, para qualquer um que não tenha ficado preso em uma caverna desde a virada do milênio. Ame ou odeie o que o Slipknot fez desde então, em uma visão global, eles são uma das poucas bandas que têm o potencial para eventualmente ocupar espaço ao lado de nomes como Iron Maiden e Metallica. 

Pensando bem, ladainha pura. Basta dar uma olhada nas principais atrações dos festivais de música mundo afora. Eles estão no topo. O que não significa que a sua trajetória tenha sido um conto de fadas. Muito pelo contrário, aliás, o que o grupo passou para chegar ao ponto em que está hoje se assemelha em muito às deturpadas e distorcidas crônicas brutais que a sua música representa. Drogas, vícios, a morte de um integrante, a demissão de uma peça até então fundamental. O futuro parecia cada vez mais sombrio.

Mas os seis anos desde All Hope Is Gone parecem ter sido o início da ressurreição. Toda a frustração, o pesar, o ódio, o desespero, a raiva e a dor pelo qual o Slipknot passou é catalisada em cada uma das faixas de .5: The Gray Chapter.

Os ruídos imperfeitos, de tons esquisitos abrem espaço para um cenário cinzento, sujo, irregular em “XIX”, com o gosto da poluição impregnado no concreto que se aproxima, um choque violento, cruel o suficiente para ouvir músculos se arrebentando e ossos se partindo ao primeiro contato de “Sarcastrophe”. Em ritmo acelerado, como um coração bombeado pela adrenalina prestes a explodir, o ritmo frenético parece assombrado por uma tensão em seu limite, um derradeiro grito de vida em direção a um céu nublado nas contrastantes nuances de “AOV”. 

Por falar em desespero, “The Devil in I” soa como uma fiel representação do caos que se instaura na mente daqueles que já deram as mãos à loucura por um tempo, de maneira oscilante e semelhante ao distúrbio de “Killpop”, que esconde por trás de suas bonitas melodias uma psicopatia assustadora. O tributo final ao companheiro caído, “Skeptic” pode ter uma letra quase infantil, mas traz um pesar tão latente que se torna uma das mais sinceras e diretas peças deste capítulo, assim como a pancadaria desenfreada de “Lech”.

A calmaria chega apenas com “Goodbye”, junto com aquela sensação de umidade que impregna toda uma região, um entardecer gelado em uma daquelas cidades agrícolas nos confins de Iowa, que se torna mais turbulento com o anoitecer e retomando o mesmo ritmo martelante com “Nomadic”, “The One That Kills The Least” (uma irmã mais nervosa de “Dead Memories”) e “Custer”, esta última de longe um dos mais infernais e perturbadores frutos destes sujeitos.

Se um velho gravador fosse encontrado no porão de uma daquelas casas abandonadas, na beira de uma estrada que vai para nenhum lugar, não seria de duvidar que o seu conteúdo seria “Be Prepared For Hell”, uma introdução nada saudável para a controversa “The Negative One”, que forçando a barra com certa vontade, realmente parece esconder um desabafo em relação ao antigo baterista. “If Rain Is What You Want” encerra o capítulo como se tudo o que se passou desde o choque com o concreto em “Sarcastrophe” não tenha sido nada além de uma vertigem causada pelo amortecimento contra a dor, uma forma de lidar com a situação desesperadora. E agora você se encontra no chão, finalmente tomando consciência da situação, entre desistir e tentar se reerguer, enquanto é castigado pela chuva.

Há algo errado com a banda? Definitivamente. Estranho seria se toda a catástrofe dos últimos anos não tivesse desestruturado de alguma forma a fundação na qual eles se erguiam. O reflexo disso está em cada riff, mudança brusca, berro ensandecido ou sussurro de .5: The Gray Chapter. Para o bem ou para o mal, a negatividade é o guia do novo trabalho, e embora já fosse presente no apocalíptico cenário que a sua música remetia nos álbuns anteriores, nunca pareceu tão profundo e honesto quanto aqui.

Pode não ser a mais frenética música, a mais tensa, a mais agressiva ou desconexa que eles já fizeram, mas é a que traz possivelmente a mais importante mensagem nesse momento. O Slipknot parece se levantar, não importando o quanto tenha sido dura a queda, nem quantas marcas ela tenha deixado. A dor permanece. Mas eles estão de pé.

Tracklist:

1 - "XIX"
2 - "Sarcastrophe"
3 - "AOV"
4 - "The Devil In I"
5 - "Killpop"
6 - "Skeptic"
7 - "Lech"
8 - "Goodbye"
9 - "Nomadic"
10 - "The One That Kills The Least"
11 - "Custer"
12 - "Be Prepared For Hell"
13 - "The Negative One"
14 - "If Rain Is What You Want"

Nota 4/5


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