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sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Discos para história: All Things Must Pass, de George Harrison (1970)


A 62ª edição do Discos para história fala sobre All Thing Must Pass, álbum mais conhecido da carreira solo de George Harrison. Feito pouco tempo depois do rompimento dos Beatles, o LP triplo, dois com canções e um com jams, era reflexo de anos de canções guardadas por não haver espaço em sua antiga banda para mostrar seu trabalho.

História do disco

Após dois discos experimentais, Wonderwall Music e Electronic Sound, com muitas canções instrumentais, George Harrison estava mais do que farto de sua vida nos Beatles. Durante as gravações de Abbey Road/ Let it Be, ele, irritado com Paul McCartney, decidiu deixar a banda de vez – exatamente como Ringo Starr havia feito poucos meses antes. Mas, assim como o amigo e baterista, ele também voltou atrás e decidiu continuar.

Bom, depois desse acontecimento, eles fizeram o show no telhado da Apple, o último dos Beatles. Semanas depois, McCartney anunciou via imprensa que estava gravando um disco solo e deixando de vez de ser baixista do grupo. Era o pontapé que faltava para Harrison começar a gravar seu próprio trabalho. Bem, quase isso.

Incentivado por amigos de longa data, o guitarrista chamou Phil Spector, que ele conheceu durante as gravações do primeiro disco solo de John Lennon, para uma espécie de audição de material inédito. E segundo o lendário produtor, ele tirou um calhamaço de folhas com letras e melodias e começou a cantar uma canção atrás da outra. Era um material excelente. Detalhe: boa parte havia sido desprezada durante seções de sua antiga banda. Spector não deixou por menos e logo agendou a primeira gravação.

Porém havia um problema: George estava muito receoso em gravar seu primeiro disco solo. Primeiro, ele não queria se aproveitar da saída dos Beatles para ganhar publicidade. Segundo, por incrível que pareça, ele estava inseguro com a qualidade do material. E se não fosse bom? E se ninguém gostasse dessas canções que exaltavam Krishna e o hinduísmo com um tom gospel?

Muito do material começou a ser feito entre 1968 e 1969, quando ele passou muito tempo nos Estados Unidos e firmou uma boa amizade com Bob Dylan, então afastado dos palcos depois de sofrer um grave acidente de moto. Quem também deu força para o disco foi o guitarrista Eric Clapton, outro que virou grande amigo do ex-beatle.

As gravações aconteceram no Abbey Road Studios com muitas participações de outros músicos nas gravações. Na verdade, eram muito mais reuniões de amigos do que gravações. Mas não pensem que não havia cobrança. Existe uma história muito boa de um dia no estúdio em que Clapton fez um riff e achou que estava bom o suficiente para colocar em uma faixa. Harrison disse: “Bom, se está bom para você, então coloque no seu disco, não no meu”.

Por exemplo, há rumores, até hoje não esclarecidos, de que Peter Frampton, John Lennon, Maurice Gibb e Richard Wright, do Pink Floyd, participaram de algumas seções, mas não foram creditados. Por motivos contratuais, o nome de Clapton não aparecia nos créditos, entretanto, isso foi resolvido ao longo dos relançamentos seguintes.

Sem os outros três beatles para dividir o trabalho, Harrison pôde mostrar ao mundo seu modus operandi. E era bem detalhista. Ele chegou a trabalhar até 15 horas nos overdubs de algumas canções para deixar tudo perfeito. All Thing Must Pass saiu dia 27 de novembro de 1970 e foi sucesso de público e crítica, e é aclamado como o melhor disco solo de um membro dos Beatles.


Resenha de All Thing Must Pass

A história de "I'd Have You Anytime" começou quando Bob Dylan lançou John Wesley Harding em meio a um bloqueio criativo. E em uma visita de George Harrison em Woodstock, onde Dylan passou a morar, os dois escreveram a faixa em três dias. Harrison considera uma das melhores parcerias que fez durante sua vida.

Primeira canção religiosa da carreira solo, "My Sweet Lord" saiu de uma pergunta de George para Billy Preston, pianista que chegou a gravar com os Beatles no último ano e meio de atividade do grupo, de como era escrever uma faixa gospel. Então, durante uma noite, veio o refrão complementado pela dica de uma das vocais de apoio de Preston (“my sweet lord/ aleluia”). Depois era só colocar uma melodia e completar a letra usando termos como Hare Krishna e pronto, estava feita a ótima letra.

Assim como as duas anteriores, "Wah-Wah" foi escrita durante o período entre o Álbum Branco e Let it Be, e está na pilha de descartes que John Lennon e Paul McCartney fizeram quando deram uma olhada no material da George. Basicamente, segundo sua única autobiografia, é uma homenagem ao barulho ao pedal que o acompanhou durante as gravações dos últimos discos dos Beatles. Ele também chamou os últimos trabalhos com a banda de artificiais e pretensiosos, mas isso é outra história.



"Isn't It a Pity (Version One)" fecha o lado A do primeiro disco falando sobre os anos em que o guitarrista passou em sua banda – dos 13 aos 27 anos. Fala sobre a beatlemania e como os Beatles estavam sendo desintegrando aos poucos, seja pelo ego, brigas pelo controle criativo ou por qualquer outra banalidade que os faziam discutir durante as gravações. É uma canção tão bonita, mas tão bonita, que a vontade de chorar é natural.

O lado B começa com a excelente "What Is Life", que ninguém sabe ao certo sobre o que é – se é que existe um tema específico por trás. Pode ser sobre Pattie Boyd, então sua mulher naquela época, pode ser sobre Deus e seu amor por Ele ou pode ser sua autobiografia. O certo é que ela tem o tom e os overdubs certos para fazer uma camada sonora por trás da canção. O refrão é espetacular. De Dylan, "If Not for You" ganhou uma versão tomada pela guitarra slide de Harrison, que funciona muito bem. O guitarrista gravou a versão demo, gostou e pediu para incluí-la em seu álbum solo. Já "Behind That Locked Door" é uma homenagem a Dylan, pessoa que incentivou muito Harrison a decidir sobre gravar ou não esse disco. Durante uma apresentação, o cantor folk conseguiu que o DJ tocasse o mantra Hare Krishna antes de sua apresentação e surpreendeu George, que ouviu tudo atrás de uma porta fechada. Daí surgiu a ideia de sua melodia doce, em que a guitarra slide e a bateria tranquila dão um ar quase espiritual à música.

Então já separado de Pattie, o guitarrista escreveu a romântica e sensual "Let It Down", relembrando o triângulo amoroso envolvendo ele, a então sua mulher e Eric Clapton, que viria a casar com ela. É o contraponto a “Something”, canção que Harrison havia escrito em homenagem a Boyd – o envolvimento de Krishna com as gopis, as mulheres da divindade hindu, inspirou a composição. Fechando o primeiro disco, "Run of the Mill" é a história da briga entre George e Paul que está no documentário Let It Be. Eles brigaram, e o guitarrista saiu do estúdio, sentou e escreveu essa letra, colocando tudo para fora – a Apple quebrando, os problemas pessoais entre os Beatles, enfim, tudo.



Disco 2

A balada "Beware of Darkness" abre o segundo disco. Sua letra de teor religioso e político, uma das marcas do cantor, é inspirada por sua convivência no Radha Krishna Temple, local em que aprendia sobre a filosofia e conceitos das divindades hindus. Quase um folk, "Apple Scruffs" é uma homenagem aos fãs da banda, apelidados com o nome da canção por ficarem nas imediações da Apple esperando a aparição de algum beatle. Como isso era recorrente, os quatro davam autógrafos e tiravam fotos com eles regularmente.

Poucas pessoas prestam atenção em "Ballad of Sir Frankie Crisp (Let It Roll)", mas é uma das canções que mais representam Harrison em seu estado puro – um cara alegre, sério, irônico, solitário e temperamental. Aqui também ouvimos uma homenagem a Sir Frankie Crisp, um advogado que fez muito sucesso no final do século 19 ao colaborar para o crescimento da sociedade inglesa. Voltando para música gospel, "Awaiting on You All" é uma ode à Krishna, antimaterialista e que gruda na sua cabeça rapidamente. Nos Estados Unidos, a EMI chegou a não publicar a letra no encarte por ter trechos contra a Igreja Católica e o Papa.

Harrison estava em uma fase em que estava mais inserido na vida espiritual. Ao ler o conto chinês chamado Tao Te Ching, ele se inspirou e escreveu a faixa-título do deste trabalho. Essa é outra música que chegou a ter uma demo gravada pelos Beatles, porém acabou descartada. A letra é quase caso da história do copo pela metade: uns veem meio vazio, outros, como George, sempre veem meio cheio. Talvez ela só esteja atrás dos clássicos “Something” e “Here Comes The Sun” como uma das mais bonitas dele.



O lado B do disco 2 começa com “I Dig Love”, a canção mais fraca de todo disco, mas, ainda assim, está bem acima da média de qualquer coisa que a maioria tenha feito no mesmo período. Aqui, mais uma vez, George mostrava que estava fascinado com a guitarra slide e usou e abusou do instrumento. O início meio disco de “Art of Dying” surpreende porque ela fala sobre vida, morte e reencarnação, elementos fundamentais da cultura hindu. A guitarra tem Eric Clapton solando ao fundo e Phil Collins mostrando seu talento como multi-instrumentista ao tocar congas.

Uma segunda versão de "Isn't It a Pity” está no disco, esta acústica e sem tantos instrumentos compondo a chamada “parede sonora” que Phil Spector gostava de chamar suas melodias. Encerrando o álbum, "Hear Me Lord" é um pedido de perdão do cantor e guitarrista por ter deixado de acreditar em Deus em certo ponto de sua vida em uma canção gospel tomada pelo piano e por riffs curtos de guitarra.

A audição de All Things Must Pass compensa muito qualquer coisa que você tenha passado no dia. É um disco de desabafo com tom religioso? Sim. Você pode até não gostar de religião, mas duvido que não tenha cantado Hare Krishna alguma vez logo depois de ouvir “My Sweet Lord”, por exemplo. É um álbum que acalma e aquece qualquer coração. É um trabalho que traz paz, e é isso que importa, no final de tudo. É necessário em qualquer coleção.

Ficha técnica

Tracklist:

Disco 1 - Lado A

1 - "I'd Have You Anytime" (George Harrison e Bob Dylan)
2 - "My Sweet Lord"
3 - "Wah-Wah"
4 - "Isn't It a Pity (Version One)"

Disco 1 - Lado B

5 - "What Is Life"
6 - "If Not for You" (Bob Dylan)
7 - "Behind That Locked Door"
8 - "Let It Down"
9 - "Run of the Mill"

Disco 2 - Lado A

1 - "Beware of Darkness"
2 - "Apple Scruffs"
3 - "Ballad of Sir Frankie Crisp (Let It Roll)"
4 - "Awaiting on You All"
5 - "All Things Must Pass"

Disco 2 - Lado B

6 - "I Dig Love"
7 - "Art of Dying"
8 - "Isn't It a Pity (Version Two)"
9 - "Hear Me Lord"

Todas as canções foram compostas por George Harrison, exceto as marcadas.

Gravadora: Apple
Produção: George Harrison e Phil Spector
Tempo: 105min59s

George Harrison: vocais, guitarra, violão, gaita, sintetizadores e vocais de apoio

Convidados

Eric Clapton: guitarra e vocais de apoio
Gary Wright: piano e órgão
Bobby Whitlock: órgão, piano e vocais de apoio
Klaus Voormann: baixo e guitarra
Jim Gordon: bateria
Carl Radle: baixo
Ringo Starr: bateria e percussão
Billy Preston: órgão e piano
Jim Price: trompete e trombone
Bobby Keys: saxofone
Alan White: bateria e vibrafone
Pete Drake: pedal steel
John Barham: arranjos da orquestra e do coral
Pete Ham: violão
Tom Evans: violão
Joey Molland: violão
Mike Gibbins: percussão
Dave Mason: violão e guitarra
Tony Ashton: piano
Gary Brooker: piano
Mal Evans: percussão e vocais de apoio
Phil Collins: percussão
Ginger Baker: bateria
Al Aronowitz: de tudo um pouco
Eddie Klein: vocais de apoio



Veja também:
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