No YouTube

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Resenha: Opeth - Pale Communion


A segunda-feira começa bem legal no blog. Estreando como colaborador do Music on the Run, Rodrigo Carvalho, ex-Collectors Room, começa falando sobre o novo disco do Opeth. Ele escreverá sobre metal, progressivo e seus derivados quinzenalmente neste espaço. 

Por Rodrigo Carvalho

Certos eventos únicos ocorrem ao longo da história com o propósito de causar distúrbios na realidade e intrigar qualquer um que tome conhecimento sobre ela. Seja uma chuva de sapos, uma epidemia de dança no século XVI, ou a descoberta da Cidade da Lua em Botsuana, alguns fatos beiram tanto o absurdo que muito preferem ignorar para não serem perturbados por isso. Musicalmente, o Opeth pode ser considerado um desses eventos: o grupo sueco é responsável por algumas das mais técnicas e intrigantes obras do heavy metal, com o seu híbrido de death metal, folk, rock progressivo e jazz, unido por uma densidade sentimental atormentadora e complexa.

Em 2014, o vocalista e guitarrista Mikael Åkerfeldt dá continuidade às suas explorações musicais com Pale Communion, décimo primeiro trabalho da banda e o primeiro desde Heritage, o controverso delírio heavy folk lançado em 2011 que foi motivo de revolta para certos fãs mais extremistas. Revolta esta que pode permanecer a mesma, já que o processo de viagem temporal é continuado aqui, transportando desta vez para algum lugar entre a metade da década de setenta e o início dos anos oitenta, antes da descaracterização bizarra pela qual as bandas de prog passaram. Produzido pelo próprio Åkerfeldt e mixado por Steven Wilson, Pale Communion será lançado pela Roadrunner Records/Warner Music no dia 26 de agosto.

A sensação que vem com as primeiras notas apressadas de “Eternal Rains Will Come” é a de um som confuso, reverberando de um impacto distante. Um despertar sem ar, em um campo que está sendo castigado pela chuva repentina, proporcionado pela alternância entre linhas de jazz, a herança cantuária, e algo dos primórdios de Camel e The Mahavishnu Orchestra, assombrados pela onipresente atmosfera que pesa sobre seus ombros. Talvez tudo o que se foi vivido até o momento tenha sido apenas um devaneio de febre, uma realidade alternativa para onde o espírito foi transportado enquanto o corpo perdia a sua batalha. A verdade em si começa agora.

“The Cusp of Eternity”, claramente de estruturas mais simples, traz uma interessante melodia oriental mesclada ao post-prog (se vocês considerarem este conceito válido) estabelecido pelo Porcupine Tree do In Absentia pra frente, como se Steven Wilson tivesse feito uma jam com o Orphaned Land na década de setenta. O elo perdido entre os últimos discos do Opeth, porém, parece se encontrar ao longo dos mais de dez minutos de “Moon Above, Sun Below” um exercício de montagem e reflexão sobre a brevidade da vida, da sociedade e da humanidade dentro de um contexto universal (com conclusões nada otimistas, aliás), sobre um panorama musical que envolve o catártico folk inglês, o limiar entre o heavy rock e o proto-metal e a complexidade do jazz conduzido por linhas de órgão. Um quase incompreensível desenvolvimento em infinitas mudanças de andamento, como poucas vezes se viu em sua discografia.

Novamente guiada pelo folk, “Elysian Woes” carrega uma beleza na simplicidade dos arranjos acústicos que faz frente a qualquer faixa do álbum Damnation. Talvez ainda mais profunda, pelos sussurros de Comus e Procol Harum em seus ouvidos, que se tornam mais altos enquanto a balada cresce ao redor de si. O seu encerramento abre passagem para a tão aguardada “Goblin”, o instrumental do qual Åkerfeldt vem comentando há alguns anos, espécie de tributo aos mestres das trilhas sonoras setentistas. E muito mais do que a homenagem, a música aparentemente simples não traz apenas o refinado toque clássico dos italianos, como explora a virtuose a favor da música de um Focus e a precisão de um Emerson Lake & Palmer.

O velho conto inglês cheio de ironias “River” começa com a serenidade de uma nascente no meio de um bosque ensolarado, remetendo levemente ao Yes em sua época de maior inspiração e às bandas de southern rock, e aos poucos se torna mais acidentada, pedregosa e arriscada, em uma série de ascensões instrumentais inesperadamente... felizes (?). O experimento orquestral do Opeth vem à tona em “Voice of Treason” e o seu espírito soturno ainda proveniente das cicatrizes deixadas por Heritage e Storm Corrosion, com um perturbador encerramento que abre caminho para “Faith in Others”. Bem semelhante à versão que os suecos fizeram de “Bridge of Sighs”, de Robin Trower, Pale Communion aparentemente fecha um ciclo carregando um pesar de proporções titânicas, mas ao mesmo tempo épica em sua condução sinfônica belíssima, o último momento de lucidez antes que os olhos se fechem novamente, após toda uma vida.

Por mais que o novo trabalho não apresente nada da música extrema de outrora (e há quem ainda se prenda a isso, algo compreensível), ela também faz parte da identidade da banda até a mais passageira nota, principalmente pelo estilo de composição e em como cada uma das faixas está encaixada no disco. As influências podem ser claras em certas partes e extremamente complicadas de serem identificadas em outras. E talvez apenas uma banda de conhecimento musical profundo, sobre a história e com ideias bem definidas tem a capacidade de colocar essa ambição em prática. Algo que, já há muito, os suecos são.

Extremamente diversificada, a produção cristalina, compreensível em cada nível de instrumento, exalta de forma única o trabalho de Martin Méndez e Joakim Svalberg, com baixo e órgão adquirindo importância muito maior do que anteriormente. Na mesma proporção, há um evidente destaque às vozes de Åkerfeldt (nada mal para quem ocultava sua própria voz na mixagem há alguns anos atrás) e à harmonia entre as várias camadas melódicas, o que torna a experiência extremamente hipnótica, um livro do qual não se consegue largar, com medo de que os detalhes escapem ao simples momento de desconcentração.

Se Heritage causou uma tormenta às quais ninguém estava preparado, ela sedimentou o terreno para a história sendo contada em Pale Communion. As inspirações em obscuras obras de tempos que já se passaram permanecem intactas, personificando-se aqui de forma dinâmica, equilibrada, organizada, sem perder a busca experimental, o sentimento e a liberdade presente em qualquer uma das obras anteriores. E quando dizemos qualquer, é de fato o apresentado ao longo de toda a discografia. Por mais que a sua música (ou seus conceitos, ideais e pontos de vista) tenha mudando nestas duas décadas, não houve um segundo sequer em que ela não tenha soado como o próprio Opeth. E apenas como ele.

Tracklist:

1 – “Eternal Rains Will Come”
2 – “Cusp of Eternity”
3 – “Moon Above, Sun Below”
4 – “Elysian Woes”
5 – “Goblin”
6 – “River”
7 – “Voice of Treason”
8 – “Faith in Other”

Nota: 5/5



Veja também:
Resenha: Tatá Aeroplano – Na Loucura e Na Lucidez
Resenha: Sinéad O’Connor – I’m Not Bossy, I’m The Boss
Resenha: Antemasque – Antemasque
4 em 1: Twin Peaks, Hot Action Cop, David Grissom e Have a Nice Life
Resenha: Sérgio Mendes – Magic
Resenha: The Raveonettes – Pe’ahi




Siga o blog no Twitter, Facebook, Instagram e no G+