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sábado, 16 de agosto de 2014

Discos para história: Fresh Cream, do Cream (1966)


A 55ª edição da seção falará da estreia do Cream em LPs. Depois de passar por Yardbirds e pelo John Mayall & the Bluesbreakers, Eric Clapton foi incentivado a formar sua própria banda, mas o grande desafio estava em ser o vocalista – algo que ele ainda não havia experimentado em sua plenitude.

História do disco

Um grande talento já na juventude, Eric Clapton entrou nos Yardbirds quando a banda ainda estava em seus estágios iniciais. Pouco a pouco, eles ficaram conhecidos no circuito londrino e estavam conseguindo coisas maiores. O caminho natural foi assinar contrato com uma gravadora para lançar o primeiro LP do grupo. Para vender discos, o caminho natural era deixar o blues de lado e fazer algo mais acessível. Clapton não gostou.

Justamente quando o Yardbirds atingiu o topo com seu principal single, “For Your Love”, Clapton anunciou que estava fora por não aguentar mais tocar coisas pop. Ele queria ser um bluesman como seus ídolos da adolescência. Para seu lugar, ele recomendou Jimmy Page, então apenas um músico de estúdio, que recusou por fidelidade ao amigo. Por fim, que acabou entrando na vaga em aberto foi Jeff Beck.

Em abril de 1965, o guitarrista entrou no John Mayall & the Bluesbreakers, mas saiu poucos meses depois. Ele ainda voltaria ao grupo em novembro do mesmo ano para sair de vez em julho de 1966. As idas e vindas mostram como Eric ainda era inseguro com relação à carreira. O tempo no grupo foi suficiente para elevar seu status – a famosa pichação “Clapton is God” apareceu nesse período.

Desejando expandir seu som e fazer algo mais autoral (leia-se não ser mais o guitarrista solo de ninguém), já que tinha material escrito de sobra em sua casa. Primeiro foi atrás de Ginger Baker, que estava no Graham Bond Organisation e que havia tocado com o guitarrista na formação do Bluesbreakers, ver o que acontecia.  Depois foi ver a situação de Jack Bruce, baixista e amigo de longa data. Pronto, estava formado a primeira superbanda da história da música: o Cream. Mas não foi fácil juntar os três.

Baker já tinha um histórico pesado de uso de drogas, brigas, confusões e instabilidade emocional, e isso não agradava Clapton, que não era santo, mas agora se via no papel de líder. Segundo, Ginger não queria Bruce como baixista porque não gostava dele – existem várias histórias de brigas e sabotagem de instrumentos antes das apresentações. Os dois sentaram e colocaram as diferenças de lado para se juntar no novo projeto pelo fato de terem a perspectiva de fazer música de verdade. O nome Cream surgiu da expressão ‘cream of the crop’ (tradução literal: nata da cultura).

Mas por que supergrupo? O conceito de supergrupo só ganharia forma anos depois, mas, pelo nível dos músicos e por suas carreiras no circuito, o trio que formou o Cream era o melhor que tinha na época em que bandas com quatro membros e cantores (as) faziam mais sucesso. E com Clapton sendo adorado por legiões de músicos e fãs, a formação do novo projeto do guitarrista correu a boca pequena e rapidamente a curiosidade tomou conta para saber o que sairia dali.

E não foi dessa vez que Eric Clapton superou o medo de cantar no palco. Logo que o grupo se juntou, o guitarrista não conseguiu superar o receio e a timidez, e Bruce assumiu os vocais em definitivo. Também não foi dessa vez que ele soltou seu material, sendo Jack Bruce e Baker os responsáveis pela maioria das composições. Logo que isso foi definido, foram para a estrada. E um encontro ajudou muito o futuro deles. Jimi Hendrix foi conferir a performance de Clapton no palco e apresentou a ele Chas Chandler, então seu empresário. Não demoraria muito para um acordo ser costurado entre o Cream e Chandler para trabalharem juntos.

O empresário Robert Stigwood ficou interessado no Cream e criou a Reaction Records exclusivamente para lançar Fresh Cream, primeiro trabalho do supergrupo. Gravado e lançado em 1966, o álbum conseguiu a sexta posição nas paradas do Reino Unido. Nos Estados Unidos, eles conseguiram a 39º, sendo o carro-chefe o single “I Feel Free”, que não existe na versão inglesa do álbum. Com quatro covers e seis músicas próprias na versão americana, o LP catapultou de vez a carreira dos três músicos.


Resenha de Fresh Cream (versão americana)

O disco começa com “I Feel Free”, lançada apenas em single no Reino Unido, um blues com toques psicodélicos. Popularizada nos Estados Unidos, ela é a canção mais conhecida do Cream até os dias atuais. Mostrando a força do power trio, os vocais e vocais de apoio estão combinados e condensados em menos de três minutos.

“N.S.U.” carrega bastante do estilo que ficaria muito conhecido por Frank Zappa – uma mistura entre jazz e psicodelia que ganhou o nome de acid rock. Aqui podemos ver pela primeira vez a força da bateria de Ginger Baker e, claro, Clapton mandando ver no solo.

Já "Sleepy Time Time" é um blues tradicional, simples e com belos momentos de improviso. A delicada “Dreaming” é suave e nem parece que é do Cream pela leveza dos instrumentos e dos vocais de Jack Bruce. O ritmo volta ao normal em “Sweet Wine”, canção que não nega o ano em que foi escrita, tampouco ficou datada quase 50 anos depois de seu lançamento.



Abrindo o lado B, a instrumental "Cat's Squirrel" resume bem o Cream: uma força absurda no improviso. Primeira e única cantada por Eric Clapton, “Four Until Late” é de Robert Johnson, um dos ídolos do guitarrista. Gravada para Fresh Cream, a canção ganhou um novo arranjo que soa como um blues ainda mais antigo do que aparenta ser realmente. Menos guitarra, mais gaita.

A festeira "Rollin' and Tumblin'" é um blues instrumental animado de ninguém menos que Muddy Waters, talvez a maior inspiração dos músicos ingleses dos anos 1960. Skip James foi outro que ganhou cover na estreia do Cream em estúdio em “I’m So Glad”. Encerrando o disco, “Toad” é o momento de Ginger Baker no disco em um solo de mais de cinco minutos.

A estreia do Cream era exatamente o que todos esperavam na banda: muito jazz, blues, psicodelia e improvisos. Quase cinco décadas depois de seu lançamento, o primeiro disco desse power trio ainda é essencial para entender uma época, uma geração e de como Clapton, aos poucos, conseguiria se livrar da timidez para fazer voos mais altos em sua carreira.



Tracklist:

Lado A

1 - "I Feel Free" (Jack Bruce/Pete Brown)
2 - "N.S.U." (Bruce)
3 - "Sleepy Time Time" (Bruce/Janet Godfrey)
4 - "Dreaming" (Bruce)
5 - "Sweet Wine" (Baker/Godfrey)

Lado B

1 - "Cat's Squirrel" (Instrumental)
2 - "Four Until Late" (Lead vocals: Eric Clapton) (Robert Johnson)
3 - "Rollin' and Tumblin'" (McKinley Morganfield)
4 - "I'm So Glad" (Skip James)
5 - "Toad" (Instrumental)

Ficha Técnica

Gravadora: Atco
Produção: Robert Stigwood
Tempo: 34min30s

Ginger Baker: bateria, percussão e vocais de apoio.
Jack Bruce: vocais, baixo e gaita
Eric Clapton: guitarra e vocais



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