sexta-feira, 14 de setembro de 2018

“Hey Jude”: o primeiro single da gravadora Apple


Com mais de sete minutos, faixa tem a maior duração da discografia dos Beatles

Os Beatles estavam tentando administrar a vida após a morte do empresário Brian Epstein, mas a coisa não estava indo muito bem (clique aqui e conheça a história da Apple Boutique). Então, depois de uma experiência curta e ruim, a banda resolveu focar no que realmente sabia fazer: música.

Com a gravadora Apple já estruturada, logo eles entraram em estúdio para gravar novo material. “Hey Jude” nasceu de um momento sempre triste para uma criança: o divórcio dos pais. O casamento entre Cynthia e John Lennon não estava indo muito bem e degringolou de vez quando ele apaixonou-se perdidamente pela artista plástica Yoko Ono.

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Aos cinco anos, o pequeno Julian convivia pouco com o pai e, claro, isso piorou ainda mais com a separação. Determinado dia, o então garoto recebeu a visita inesperada de Paul McCartney. Parte da convivência dos Beatles desde a escalada da banda ao sucesso, Cynthia gostou muito da atitude do baixista em saber como ela e a criança estavam. Até o fim da sua vida, a ex-modelo ficaria grata pela atitude. McCartney sairia muito tocado daquele encontro, tanto é que começou na viagem de volta para casa a criar a canção mais longa da história dos Beatles.

“Pensei que, como amigo da família, eu ir de carro até lá e falar que estava tudo bem... Tentar animá-los, basicamente, e ver como eles estavam. Sempre desligava o rádio e tentava fazer música, só para ver se alguma coisa acontecia. Comecei a cantar: 'Hey Jules/ don't make it bad, take a sad song, and make it better'. É otimista, uma mensagem esperançosa para Julian: 'Vamos, cara, seus pais se divorciaram. Eu sei que você não está feliz, mas vai ficar tudo bem’”, contou McCartney no ‘Anthology’, coletânea em vídeo sobre a história dos Beatles.

A banda entrou em estúdio pela para gravá-la em 29 de julho de 1968, no que foi um ensaio prévio de como ela soaria depois de pronta. Não precisou de muita conversa entre eles para defini-la como o próximo single, então a maior parte daquele dia foi dedicado ao arranjo e como cada um poderia melhorar sua parte.

Paul McCartney cantou e tocou piano, John Lennon estava no violão, George Harrison na guitarra e Ringo Starr na bateria. Foram seis takes, sendo apenas três completos. Em um deles, Harrison tentou criar um riff na guitarra, algo prontamente refutado por McCartney. Seria o primeiro de muitos entreveros em estúdio até o fim da banda, dali pouco mais de um ano. Na tarde do dia seguinte, sem Harrison na gravação – ele ficou ao lado do produtor George Martin –, o resto da banda fez mais alguns takes até todos estarem satisfeitos. Martin fez uma mixagem na hora para unir o melhor do material e preparar todos para a gravação com a orquestra.

No dia 31, no estúdio Trident, em Londres, aconteceu algo mágico que definiu o take a ser usado na gravação oficial. Segundo McCartney, Starr saiu para ir ao banheiro sem que ele percebesse, então a gravação simplesmente recomeçou sem o baterista – o que pode gerar comentários maldosos dos quais eu já discordo. Quando ele se deu conta, Ringo estava voltando nas pontas dos pés e entrou no melhor momento possível. Graças a isso, McCartney percebeu que ter uma longa introdução – de 51 segundos – só no piano seria uma ótima ideia.

O primeiro dia de agosto foi reservado para McCartney gravar o baixo, o vocal principal, e os outros membros da banda gravarem o vocal de apoio. Nesse dia também aconteceu a gravação com a orquestra, formada por 36 músicos. Além do dinheiro para tocar seus respectivos instrumentos, os músicos ainda ganharam um extra para gravar o “na na na na Hey Jude” da longa parte final. Apenas um recusou, afirmando que não perderia “tempo cantando e batendo palmas naquele caralho de música do Paul McCartney!”.

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Pouco mais de um mês depois, em 4 de setembro, os Beatles entrariam no estúdio Twickenham Film para gravação dos vídeos de “Hey Jude” e “Revolution”, ambos dirigido por Michael Lindsay-Hogg. O evento marcou o retorno de Ringo Starr, que havia pedido demissão no fim de agosto por não aguentar mais as brigas – nos trabalhos em estúdio, Paul McCartney gravou as baterias de "Back In the USSR" e “Dear Prudence”. O clipe de “Hey Jude” foi exibido no “Frost On Sunday”, programa do famoso apresentador britânico David Frost, em 8 de setembro. Foram três takes completos da faixa, com apenas os vocais ao vivo, até o dia de gravação dar por encerrado.

“Hey Jude” acabou sendo escolhida como o primeiro single da gravadora fundada pelos Beatles, a Apple. A decisão deixou John Lennon irritado, pois ele tinha como certo que “Revolution” teria essa honra. A faixa composta por ele acabou virando lado B.

Mais longa gravação da história dos Beatles, a faixa foi lançada em 28 de agosto nos Estados Unidos e dois dias depois no Reino Unido. Até hoje, é a canção de maior duração a liderar as paradas e o single mais bem-sucedido do grupo com oito milhões de cópias vendidas e primeiro lugar em 11 países, algo que o produtor George Martin não acreditava ao final do primeiro dia de trabalho.

“Depois que eu terminei [o primeiro dia de gravação de "Hey Jude"], eu realmente disse: 'Vocês não podem fazer uma canção tão longa assim'. Eles me gritaram de volta - não pela primeira vez -, e John perguntou: 'Por que não?' Eu não consegui pensar em uma boa resposta, exceto aquela coisa patética que não a tocariam no rádio. Ele disse: 'Eles tocarão, se formos nós'. E, claro, ele estava absolutamente certo'", contou o produtor no 'Anthology'.




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