sexta-feira, 27 de junho de 2014

Discos para história: As Aventuras da Blitz, da Blitz (1982)


Continuando a série de apenas discos brasileiros dentro da seção, o 48º Discos para história fala sobre As Aventuras da Blitz, álbum que iniciaria o crescimento da música jovem no Brasil nos anos 1980, justamente quando a ditadura começava a sair de cena.

História do disco

O final dos anos 1960 e toda década de 1970 foram difíceis para os brasileiros por conta da ditadura que se instalou no Brasil naqueles dias. Muitas mortes, desaparecimentos e sequestros aconteceram no período mais assombroso da vida de muitas pessoas. Em 1979, iniciou-se o processo de abertura política, que culminaria na eleição de Tancredo Neves seis anos depois.

Mal comparando, o adolescente brasileiro viveu algo muito parecido com os adolescentes americanos e ingleses do final dos anos 1950 e início dos anos 1960. Depois do estouro de algumas bandas anos antes, existia pouquíssimas opções no mainstream para eles, já que a cena era completamente dominada pelos já veteranos Caetano Veloso, Gilberto Gil, Roberto Carlos e toda turma que veio da Tropicália e da Jovem Guarda. Então as opções eram ouvir o mesmo de seus pais ou sair procurando algo que agradasse aos ouvidos.

Por isso, não foi difícil perceber a construção de uma cena musical entre os jovens no famoso esquema “faça você mesmo” – a Gang 90, de Júlio Barroso, e Lulu Santos talvez sejam os maiores exemplos de quem saiu dos anos 1970 para fazer sucesso na década seguinte. A mentalidade das rádios também estava mudando, sendo a lendária Rádio Fluminense, popularmente conhecida como Maldita, principal expoente dessa mudança só por passar a ter uma programação dedicada ao rock.

Veja também:
Discos para história: O Passo do Lui, dos Paralamas do Sucesso (1984)
Discos para história: Cabeça Dinossauro, dos Titãs (1986)
Discos para história: Ideologia, de Cazuza (1988)
Discos para história: Eliminator, do ZZ Top (1983)
Discos para história: Tommy, do Who (1969)
Discos para história: Born In The U.S.A., de Bruce Springsteen (1984)


Mesmo com toda essa conjunção de fatores propícios para fazer qualquer banda rapidamente chegar aos ouvidos de centenas de pessoas, a Blitz surgiu como um dos grandes fenômenos do underground brasileiro. Não existia nenhum interesse de gravadoras em ter a banda em seu cast, então, sem a perspectiva de gravar um álbum, eles acabaram ficando no circuito de shows.

Além de Mesquita, Fernanda Abreu, Marcia Bulcão, Ricardo Barreto, Antônio Pedro Fortuna, William "Billy" Forghieri e Lobão fizeram parte da primeira formação da Blitz que arrasou em todas as apresentações que fez no Rio de Janeiro em 1981. Mesmo assim, Guto Graça Mello, Nelson Motta e Liminha, os principais produtores do país à época, não aceitaram trabalhar com eles.

Quem se interessou, após ouvir muitos elogios, foi Mariozinho Rocha, chefão da gravadora EMI-Odeon. Ele mexeu os pauzinhos dele e colocou a Blitz para gravar no renomado Estúdio Transamérica. Convencidos do potencial, um contrato foi assinado e o primeiro single, “Você Não Soube Me Amar”, foi lançado com a expectativa de vender 20 mil cópias. A faixa estourou no Brasil todo e a produção mal conseguia da conta dos pedidos – 500 mil cópias do single sem lado B foram vendidas em poucos meses.

Mas isso tudo aconteceu durante um racha interno na banda. O baterista Lobão, sonhando com a carreira solo, teve a ideia de fazer um último trabalho na Blitz antes de sair: posou para fotos que seriam capa da Istoé daquela semana para tentar voar no sucesso de sua futura ex-banda. Somado a saída do baterista, a censura tentava seu último suspiro ao impedir o lançamento de As Aventuras de Blitz por conta das faixas "Ela Quer Morar Comigo na Lua" e "Cruel Cruel Esquizofrenético Blues". Em protesto, a gravadora mandou riscar todos os LPs com pregos, dando um claro recado ao público do problema que enfrentaram.

Com o lançamento do primeiro trabalho, a Blitz estourou no Brasil. Se as músicas eram boas, as apresentações também eram – por a maioria dos membros terem saído do teatro, ele conseguiram inserir elementos que não haviam na música pop nacional, causando espanto e, ao mesmo tempo, admiração do público. O disco As Aventuras da Blitz foi a fagulha que o chamado rock nacional precisava para estourar. Depois dele, outras bandas colocaram na cabeça que era possível gravar um LP e viver de música.



Resenha de As Aventuras da Blitz

O álbum parece uma sessão de música ao vivo, refletindo as apresentações da banda no Circo Voador e a introdução "Blitz Cabeluda" deixa isso bem claro. Mudando os rumos, "Vai, Vai, Love" tem o típico humor característico da Blitz e os vocais femininos dando o ar da graça, mostrando que o apoio das moças era fundamental na estruturação das faixas.

Ter uma grande gravadora era bom por um simples motivo: poder colocar efeitos de água no reggae "De Manhã (Aventuras Submarinas)", que também soa como um Beach Boys abrasileirado, enquanto “Vítima do Amor” começa com uma gaita para virar um rock bem animado e dançante.

O bom humor aparece pela primeira vez em "O Romance da Universitária Otária", uma história de uma moça que ainda não havia se decidido sobre o que fazer na faculdade, mas aparece o Abreu e bagunça a vida dela. O bom pop "O Beijo da Mulher Aranha" consegue mostrar bem o motivo do sucesso deles – as letras de fácil acesso colaboram muito para aprender uma faixa após duas, três audições. O blues “Totalmente em Prantos” encerra o lado A, que se não tem nenhum destaque, é bem coeso e alterna bem momentos dançantes e calmos.



O lado B abre com o rock futurístico “Eu Só Ando a Mil”, em que os vocais de apoio de Fernanda Abreu e Marcia Bulcão dominam completamente a faixa. Segunda canção a fazer sucesso, "Mais Uma de Amor (Geme Geme)" é outro reggae romântico que chama atenção pelo simples fato de qualquer pessoa se identificar com a letra.

Certamente, "Volta ao Mundo" não seria lançada nos dias atuais porque o politicamente correto faria estardalhaço, mas é inegável sua graça. O carro-chefe do álbum "Você Não Soube Me Amar" foi a última música no lançamento oficial, então todos tinham que passar por, pelo menos, metade do disco até chegar nela. E dá para perceber o motivo de ter feito sucesso: ela se destaca no meio das outras, parece até que é outro álbum. Um belo encerramento.

(Na versão lançada tempos depois, o rock animado "Ela Quer Morar Comigo na Lua" e o razoável blues deprê "Cruel Cruel Esquizofrenético Blues" entraram).



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