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segunda-feira, 8 de junho de 2015

Documentário: Napalm – O Som da Cidade Industrial, de Ricardo Alexandre (2013)


Nunca dirigi um documentário na minha vida, mas uma coisa aprendi em anos assistindo a vários deles: quando bons depoimentos de pessoas que viveram aquilo se unem a imagens de arquivos históricas, o longa tem tudo para dar certo. Esse exemplo cabe muito bem em Napalm – O Som da Cidade Industrial, dirigido pelo escritor e jornalista Ricardo Alexandre.

O Napalm foi uma casa de shows localizada no centro de São Paulo, lugar que convivia com a deterioração, pobreza e brigas entre punks e metaleiros quase diariamente. Com poucas opções baratas para shows, acabou virando um ponto de encontro entre, como disse Clemente (guitarrista e vocalista dos Inocentes), “a classe trabalhadora e a classe mais rica”. E esse encontro pôde presenciar momentos históricos da música brasileira.

Voluntários da Pátria, Ira!, Mercenárias, Titãs, Inocentes, Capital Inicial, Legião Urbana, Plebe Rude, Ultraje a Rigor e outras bandas do circuito paulista, que transitava entre o punk hardcore, new wave e pós-punk, fizeram parte da história do Napalm em seus quatro meses de existência – entre julho e novembro de 1983. Uma coisa que raramente se vê hoje em dia era o amadorismo em que as coisas eram conduzidas. Um exemplo disso era que o próprio Clemente, João Gordo e Fernanda Villa-Lobos (atual mulher de Dado Villa-Lobos) trabalhavam recebendo uma mínima ajuda de custo.

O gostoso do documentário são as imagens de arquivo da casa, filmadas de modo completamente amador. O dono queria apenas registrar aquele momento e conseguiu algumas imagens históricas de bandas que, até hoje, estão por aí. Como disse o jornalista Alex Antunes, quem participou daquela cena virou crítico, músico ou músico e crítico. Aliás, muitas dessas figuras fizeram parte da primeira geração da revista Bizz, a Bíblia do jornalismo musical até hoje.

Uma coisa que o longa deixa bem claro era como a cena de São Paulo estava completamente do lado oposto as de Brasília e do Rio de Janeiro – a primeira reconhecidamente anos à frente, enquanto a segunda era algo mais alegre e divertido – ao explorar o lado mais pesado e sombrio da cidade e de suas vidas difíceis. “Tudo filho de embaixador que ia para Inglaterra uma vez por ano. Eles estavam mais dentro do pós-punk do que nós”, diz João Gordo.

O Napalm fechou pouco tempo depois de abrir, mas seu período em funcionamento entrou para história da música brasileira. Um pedaço curto, porém fundamental para entender aquela geração de pessoas tão diferentes que se misturaram por terem um ideal em comum: a música (além de se embebedar e brigar um pouco).



Documentário está na íntegra no Bis Play.