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quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Resenha: Sólstafir - Ótta


Por Rodrigo Carvalho

Da terra do gelo e do fogo, entre lagos e montanhas, o Sólstafir não apenas têm cravado o seu nome nas páginas da história da Islândia, como têm sido um dos instrumentos da ilha em manter toda a sua herança viva, através de algumas das mais singulares obras musicais do heavy metal atual. Seus álbuns Masterpiece of Bitterness e Köld não apenas atraíram a atenção de um público extremamente diversificado, graças às influências e comparações que dificilmente faziam justiça ao seu som, muito além do black metal épico primordial de seu debut Í Blóði og Anda.

O complexo híbrido de sons que vão de The Hellacopters, Nachtmystium, Neurosis, Entombed e, obviamente, Sigur Rós culminou no clássico obscuro Svartir Sandar, de 2011, estabelecendo um direcionamento cada vez mais artístico e contemplativo, influência direta não apenas de sua cultura, mas também do ambiente único ao seu redor. Seu novo trabalho, Ótta, lançado pela Season of Mist, prossegue no mesmo caminho por paisagens cada vez mais profundas.

Como o início de um conto ancestral, “Lágnætti” apresenta o amanhecer em um mundo de pesar, um lugar cinzento que contrasta com sua própria tranquilidade. Das primeiras notas conduzidas por um solitário piano ao ar livre, ao absoluto caos proporcionado por ruídos da própria natureza se movendo, há quase um aspecto onírico no crescendo que serve de pano de fundo para a história de final não exatamente agradável. Mantendo o mesmo direcionamento, “Ótta” agrega ainda mais a herança folclórica com a inserção de linhas de banjo e violino em meio aos momentos mais cadenciados da música, que se alternam com infinitas camadas sonoras, afogando ainda mais no cenário apresentado até aqui.

“Rismál”, com seu tom ritualístico, transporta para o meio de uma mata umedecida pela garoa e névoa constante, em que as notas ecoam através da noite acompanhadas por fantasmagóricos tambores, um desenvolvimento progressivo que leva a “Dagmál” e “Miðdegi”, que mesmo com sutis diferenças, encontram na distorção e na simplicidade de sentimento o equilíbrio entre o mais experimental dos anos setenta e do alternativo atual, como se o Baroness de Yellow & Green tivesse sido criado em uma ilha isolada e decadente.

Mesmo sem recorrer aos artifícios mais tradicionais, “Nón” apresenta-se como uma ode ao próprio passado do Sólstafir, reverenciando suas raízes no lado extremo do black e viking metal através do pesar e o do caos mental proporcionado pela crueza e velocidade dos riffs, em meio àquela atmosfera obscura.  Após a tormenta, “Miðaftann” surge como um solitário raio de sol por entre as nuvens, um lapso de tranquilidade sobre um precipício de altura acrofóbica a beira do oceano, o derradeiro momento de sanidade antes do mergulho em direção à “Náttmál”. 

Como aquele segundo em que se prende a respiração, seu crescimento ao longo dos onze minutos passa por uma queda interminável e encerra o álbum de forma atônita. Cego. Caindo para um vasto azul que se aproxima a cada segundo. Até atravessar a superfície congelante e se encontrar ainda vivo. Inerte. Sendo carregado para a margem por uma maré tempestuosa. Terra firme. A água salgada é expulsa dos pulmões pelo ar violento que ali entra. E o larga ali, deitado na areia e olhando para as nuvens carregadas no céu. Completamente perdido.

Com a devida imersão, Ótta é praticamente uma obra meditativa, uma trilha de comunhão entre o indivíduo e o ambiente ao seu redor, proporcionando uma viagem através de paisagens cinzentas, complexas, mas ao mesmo tempo belíssimas. A ambientação sonora típica do mais hipnotizante post rock europeu divide espaço com uma versão híbrida rústica entre o progressivo e o viking metal em seus formatos mais contemplativos, sem ficar preso a formatos definidos e esbarra intencionalmente no post-punk, no shoegaze e, principalmente, no folk de forma única, atingindo o equilíbrio já proposto no espetacular Svartir Sandar, estabelecendo uma sonoridade sem precedentes.

O passado extremo do Sólstafir mantém-se no peso de cada linha e verso em islandês, enveredado como parte de sua própria ancestralidade, onde o folclore permanece vivo por entre os vales de gelo e as terras vulcânicas negras, trazendo não a visão de um lugar onírico ou fantasioso, mas sim de um lugar real. E talvez não haja lugar tão diverso em tons e sinceros sentimentos quanto a própria realidade. Este é exatamente o fator que torna Ótta um dos trabalhos mais profundos do ano.

Tracklist:

1 – Lágnætti
2 – Ótta
3 – Rismál
4 – Dagmál
5 – Miðdegi
6 – Nón
7 – Miðaftann
8 – Náttmál

Nota 5/5



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