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quarta-feira, 4 de junho de 2014

Resenha: Titãs – Nheengatu


Os Titãs foram uma das bandas que estiveram no furacão do rock nacional nos anos 1980, mas, como muitos de seus contemporâneos, não conseguiu fazer jus aos discos anteriores nas duas décadas seguintes– com o adendo da saída de Arnaldo Antunes, Nando Reis e Charles Gavin, e a morte de Marcelo Fromer. Reduzidos a quatro, agora eles tem a chance da redenção em Nheengatu depois do péssimo Sacos Plásticos.

Nheengatu começa com a pedrada "Fardado", destaque para o volume da guitarra e para bateria pesada. Os vocais de apoio, gritados, também dão força à faixa cantada por Paulo Miklos. O peso não diminui em "Mensageiro da Desgraça", o que não deixa de ser surpreendente. O tom militar da canção e a referência ao momento vivido por São Paulo nos últimos 12 meses, mais o refrão fácil, consegue deixar o ouvinte no mínimo curioso sobre o resultado final.

Parece mesmo que os Titãs querem trazer o clima de Cabeça Dinossauro para o século 21 em "República dos Bananas", uma baita canção com ares punk. Até aqui, não há pausa e, o mais incrível, sem uma balada mela-cueca. Pesada, "Fala, Renata" consegue equilibrar bem o melhor da banda – letra e melodia, algo que eles parecem ter se esquecido de fazer nos últimos tempos.

Outra letra com temática que traz a realidade à tona, "Cadáver Sobre Cadáver" fala sobre a vida, soando até uma boa reflexão para quem estiver disposto a fazê-la. "Canalha", de Walter Franco, ganhou uma versão cheia de overdubs e um belo vocal de Branco Mello. "Pedofilia" trada de um tema pesado com uma faixa rápida e rasteira, um verdadeiro punk e ninguém melhor para cantá-la do que Sérgio Britto.

Falando do Brasil, do presente e do passado, "Chegada ao Brasil (Terra à Vista)" também é rápida e muito boa por ser raivosa – era isso que estava faltando ao grupo nos últimos tempos. O ritmo não cai em "Eu Me Sinto Bem", outra paulada absurda, diferente de "Flores Pra Ela", que começa com uma tocada de ritmos tipicamente brasileiros, acelerando e diminuindo o ritmo no ápice.

"Não Pode" retoma a guitarra tipicamente da banda no vocal inconfundível de Britto na canção mais fraca até aqui ao lado da seguinte, "Senhor", já "Baião de Dois" soa como uma regravação de alguma canção de Raul Seixas, soando muito interessante. Por fim, "Quem São os Animais?" encerra muito, muito bem Nheengatu.

Duas coisas: 1) em pleno 2014, ver os Titãs fazendo um álbum contestador é no mínimo preocupante com essa nova geração aí; 2) até que enfim eles fizeram um trabalho que condiz com a história deles. O grupo passou por muita coisa e abriu mão de muita coisa pelo sucesso, como dublar suas canções em programas de auditório. Olhando para trás, fazer isso prejudicou o andamento de uma brilhante carreira. Quase três décadas depois de seu maior sucesso, os Titãs voltaram. Ainda não é um disco do mesmo nível, mas só de abrir mão de certas coisas e voltar ao simples já é muito bom. Não há preço pelo respeito, e parece que eles querem isso de volta.

Tracklist:

1 - "Fardado"
2 - "Mensageiro da Desgraça"
3 - "República dos Bananas"
4 - "Fala, Renata"
5 - "Cadáver Sobre Cadáver"
6 - "Canalha"
7 - "Pedofilia"
8 - "Chegada ao Brasil (Terra à Vista)"
9 - "Eu Me Sinto Bem"
10 - "Flores Pra Ela"
11 - "Não Pode"
12 - "Senhor"
13 - "Baião de Dois"
14 - "Quem São os Animais?"

Nota: 3,5/5



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