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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Meus discos de 2015, por Rafael Monteiro


Por Rafael Monteiro

Mesmo tendo vivido quase um mês de 2016, acho que não vou sossegar enquanto  não livrar a minha cabeça do que eu ouvi, vi e fiz até dezembro passado. As faturas e dívidas a pagar até fevereiro só reforçam a mesma impressão de todos os anos: o ano só começa quando eu consigo finalizar todas as minhas listas. Para manter a minha saúde mental, portanto, é necessário e urgente que eu dê início à primeira delas.

Bem, os discos de 2015. Musicalmente, o ano foi cheio de queixas injustas da minha parte. Passei meses reclamando da quantidade de álbuns realmente interessantes, sem saber que já enfileirava uma série deles entre os meus favoritos. Nem mesmo as notas dadas com certa periodicidade no Rate Your Music me fizeram perceber com antecedência a quantidade de álbuns que esperavam por review na lista abaixo.  

Eram tantos que alguns, infelizmente, tiveram de ficar de fora, como Dia 16 (Odair José), Vulnicura (Bjork), Jair Naves (Trovões a Me Atingir), No Cities to Love (Sleater Kinney), Jonathan Tadeu (Casa Vazia), Fading Frontier (Deerhunter), Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit (Courtney Barnett), b'lieve i'm goin down... (Kurt Vile)  e Natalie Prass (Natalie Prass). Se tiver tempo para ouvir qualquer um deles, vá fundo. Será um tempo bem aproveitado.

Como esse é o espaço onde eu mais posso exercer a minha megalomania (no Instagram, a gente finge que tira selfie irônica, né?), os textos continuam dizendo mais sobre mim do que música. Eu deveria ter incluído menos discos, mas o número ficou bonitinho assim, combinado com a minha idade.  Se você ainda quer saber, estes são os eleitos.


Alex G – Beach Music

A descrição de Alex G que eu escrevi no ano passado  continua valendo: mesmo tendo ganho um relativo público e assinado contrato com uma gravadora, ele continua parecendo um menino que grava as suas músicas no chão do quarto. A evolução está dentro das músicas: embora menos pessoais, elas agora são muito mais complexas e surpreendentes. O título e o ouvido para melodia o aproximam de Mac Demarco, mas acho que a comparação acaba por aí. A grande graça de Alex G é unir as influências de outros artistas, como Elliot Smith, e fazer um som que não se vê em outro lugar, pois as angústias e inseguranças são só dele.


Destroyer – Poison Season

Dan Bejar faz questão de ser o estranho do rolê. Na melhor entrevista do ano passado, ele explicou como nunca se identificou com as bandas chamadas indies e como se sentiu isolado nos Estados Unidos desde que chegou do Canadá. Destroyer é um grupo de um cara que nunca andou em bando e tem um certo orgulho disso. Em vez de se aproximar dos seus contemporâneos, Bejar fez um disco com cara de anos 70, cheio de referências de artistas eu admiro muito, como David Bowie, Bruce Springsteen e Leonard Cohen. Posso dizer que eu o entendo bem.


Julia Holter – Have You My Wilderness

Se em Loud City Song o olhar da narradora parecia ser da janela do quarto para a fora, agora ela quer nos apresentar os seus aposentos. Ao contrário da música, os conceitos dos discos dela não são difíceis de entender. Até quem não ouviu Have You My Wilderness, entende a proposta de intimidade e introspecção. Mas, diferentemente do que pode parecer, estar sozinho e calado não significa exatamente estar triste. Holter está feliz com o seu próprio espaço. Ela deve concordar comigo que é muito bom ser caseiro.



Siba – De Baile Solto

Durante o excelente show do pernambucano no Sesc Pompeia, em junho do ano passado, eu me peguei pensando: o repente nunca foi tão lírico como nas músicas do homem. Neste momento, eu pensei que ele estivesse resgatasse o meu orgulho nordestino, mas  hoje eu percebo como o sentimento de pertencimento quando eu ouço De Baile Solto é mais amplo. Nenhum álbum concebido em 2015, neste território descoberto pelos índios, foi tão brasileiro. O humor, a euforia, a mistura entre guitarra e a fanfarra e até os retratos bonitos da nossa gente na voz de Siba me convencem que esse é o melhor país do mundo.


Father John Misty – I Love You, Honeybear

O disco mais ouvido por mim em 2015. Com o passar dos meses, Josh Tillman foi aparecendo mais vezes na  mídia e nós fomos percebendo como ele não bate muito bem da cabeça (não vai dar para esquecer tão fácil do relato dele sobre o sonho que teve com Lou Reed). Nada disso, contudo, tirou a força das músicas deste seu segundo disco solo. Inegavelmente, I Love You, Honeybear se aproveita da nostalgia do rock (minha favorita, "When You’re Smiling and Astride Me", é pura fase setentista de Eric Clapton) e traz absolutamente nada novo. O que o torna tão especial é justamente o personagem pancada da cabeça, capaz tanto de refletir sobre a humanidade e os Estados Unidos em pleno dia do casamento quanto emocionar com a lembrança do primeiro dia em que viu a atual esposa.


Joanna Newsom – Divers

“Sapokanikan” é o meu clipe favorito do ano passado. A ideia de “trovadora andante” do vídeo mostra exatamente o que é o disco e a sua autora. Inquieta, Newsom me lembra muito o Dylan dos anos 60 numa versão menos genial. A cantora, harpista e pianista (creio que não para por aí), usa palavras difíceis em letras longas para apresentar possibilidades que não parecem se referir, ao menos na minha interpretação, somente ao plano terrestre. E esse olhar embaçado de viajante no mundo e o jeitinho de duende bem que poderiam ser de alguém que só está por aqui de passagem. Vocês me desculpem, mas eu ando vendo muito Arquivo X.


Beach House – Depression Cherry

Não foi exatamente fácil se acostumar com a rotação lenta de Depression Cherry. Somente depois de algumas tentativas, eu percebi que a letra de Space Song talvez indicasse que esse fosse um disco do espaço.  Afinal, partindo do pressuposto falso que os filmes de ficção científica não mentem, podemos dizer que as faixas são lentas como a movimentação dos satélites e quase tão silenciosas como as missões de um astronauta fora da nave. Levitation seria o início da viagem, seguida pelo impulso de decolagem em Sparks, a saudade de casa (Beyond Love) e tendo o seu ápice com uma tempestade de estrelas cadentes nos minutos finais de PPP. As músicas posteriores tentam esconder o jogo, deixando o final em aberto. Na minha cabeça, diante da impossibilidade de um retorno para a Terra, o protagonista decidiu apreciar o cenário e se deixar levar pelo desconhecido. O astronauta, no caso, sou eu.


Kendrick Lamar – To Pimp a Butterfly

O grande disco do ano? Provavelmente.  Minha birra inicial com quem o chamou de clássico instantâneo era a inevitável comparação com D’Angelo: lançado alguns meses antes,  adiantou praticamente todas as discussões que fariam o segundo disco de Lamar tão enaltecido. O que eu demorei para perceber é que, nesta altura do campeonato de pontos corridos da música, não há rivais para Kendrick Lamar. O talento em ebulição da criança, ainda sem rosto definitivo, com tanta urgência e coragem, parece às vezes de mentira (quando apresenta músicas exclusivas em talk shows só pelo prazer de compor e rimar, por exemplo, impossível não pensar:  “ele está muito acima de qualquer um”) . Durante todas as faixas, o disco só corrobora a definição de Tostão para os verdadeiros talentos:  “aqueles seres capazes de unir suas qualidades, de juntar as partes e de formar um todo, uma unidade”Se fosse um jogador, Kendrick seria o Messi.


Elza Soares – A Mulher do Fim do Mundo

Tento puxar pela memória e não consigo lembrar de nenhuma outra personalidade da música brasileira que merecesse tamanho reconhecimento tardio em vida. Em casa, meus pais sempre chamaram Elza de “mulher do Garrincha”, a “recauchutada”, a “velha rouca”ou a “cantora que namora homens mais novos”. Essas ofensas podem parecem grotescas e exageradas, porém, são reais e, infelizmente, persistem até hoje. Minha família ajuda a explicar como o racismo e o machismo mancharam a carreira de uma das vozes mais importantes da história do samba. Por amor ao ídolo de pernas tortas, ela acabou compartilhando a culpa de um processo de autodestruição que só dizia respeito ao homem e a sua doença, o alcoolismo. Representando as que apanharam e seguiram em frente, as negras, as sambistas e todo o movimento feminista, ela vem nos lembrar uma verdade mais áspera que a sua voz: perto do que eu cresci ouvindo em casa, o que é o fim do mundo?


Sufjan Stevens - Carrie & Lowell

Minha relação com o vencedor tem alguns outros personagens mais importantes do que eu. O primeiro deles é o acaso. O ano de lançamento do álbum mais pessoal da vida de Sufjan Stevens (segundo) calhou de ser o mesmo em que eu me tornei tio. Ok, eu sei que não parece lá uma grande novidade, porém, acredite: um bebê nasce com a capacidade de bagunçar as relações de toda a família. A partir dos três meses de idade, Julinha (terceira) virou a minha companheira de trabalho durante o home office. Como minha mãe cuida dela, ela tira mil sonequinhas diárias numa cama posicionada a três passos do meu notebook. Minha rotina de trabalho, desde então, ganhou novas tarefas, como balançá-la após pesadelos, atestar que ela não gorfou no travesseiro e bancar o bobo toda vez que ela acorda. Por isso, pela primeira vez, eu me sinto, de certa forma, responsável por alguém – e eu não estou falando apenas da minha vigília infantil/jornalística. Às vezes, quando ouço Carrie & Lowell, me pego perguntando: “Como eu posso ser um tio legal para ela numa família católica e conservadora?”. Antes dela completar 1 ano, já me intrometi em assuntos que não devia, como “tamanho de roupa de menina” (vê se pode). Estou ciente que preciso me colocar no devido lugar de tio, aquele tipo sumido que só aparece para perguntar dos namoradinhos.  Porém, novamente, o disco me mostra, como um antigo diário, como a ausência de personagens pode afetar a vida de uma criança. Ela tem pais amorosos, avós que moram perto e logo, logo vai fazer amiguinhos na creche, contudo, o tio não quer ser uma página em branco no álbum de família. Podemos jogar bola, ler livros, ouvir uns discos na minha vitrola, enfim. Todo esse relato foi escrito para que eu me sentisse confortável para dizer que a conflituosa relação entre Sufjan Stevens e a sua mãe, Carrie, me fez querer ser presente e influente na vida da menina que dorme diariamente ao meu lado. Quando tiver mais grandinha, Julinha, me lembre de te apresentar um músico que é conhecido por suas asas de borboleta (Nota do editor: melhor disco do ano para o Rafael).

Os outros 15 discos da lista:

John Grant - Grey Tickles, Black Pressure
Titus AndronicusThe Most Lamentable Tragedy 
Bob DylanShadows in the Night
Chastity BeltTime to go home
JlinDark Energy
Passo Torto e Ná OzzettiThiago França
MahmedSobre a Vida em Comunidade
Jason Isbell - Something More Than Free
Kamasi WashingtonThe Epic
MiguelWildheart
Jamie XXIn Colour
Jenny HvalApocalypse, Girl 
Jim O’RourkeSimple Songs
Fábio GóesZonzo
Vince StaplesSummertime ‘06

Para ler as justificativas da segunda metade, basta ir no blog pessoal do Rafael.

Veja também:
Meus discos de 2015, por Giovanni Cabral
Meus discos de 2015, por Rodrigo Carvalho
Meus discos de 2015, por Ricardo Seelig
Melhores do ano - 2015

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