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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Meus discos de 2015, por Rodrigo Carvalho


Por Rodrigo Carvalho

Que ano foi 2015.

Engraçado que o consenso geral internet afora é de que o ano foi terrível, que não passava, que as pessoas só se deram mal e as notícias eram apenas ruins. Ora, talvez seja injustiça olhar apenas por esse lado.

Vocês realmente pararam para pensar nas outras coisas que aconteceram, além disso? Os lugares que você foi, as pessoas que conheceu, as boas notícias e as boas mudanças, ter ganhado ou comprado aquilo que já queria há anos, as músicas que ouviu e as bandas que surgiram. A lista pode ser infinita.

E porque tudo isso é importante é bem simples. Foi exatamente pensando nisso que consegui chegar na lista final dos álbuns favoritos de 2015: sem preocupações com a técnica instrumental, as letras, a nacionalidade ou a relevância das bandas, como já fiz em anos anteriores, e apenas pensando nos que de alguma forma foram importantes ao longo dos meses.

E foi muito, mas muito mais fácil.


Sigh - Graveward

O black metal teve um de seus anos mais icônicos da era moderna. Fronteiras foram redefinidas em um estilo que espalha gradativamente as suas raízes e envereda por novas culturas. Nomes ascenderam das profundezas não apenas no gélido norte, mas também no longínquo novo mundo e também no extremo oriente. O Sigh pode ser apenas um nome entre eles, mas a esquizofrenia de uma mente perturbada após ter ido ao inferno e voltado coloca os japoneses em uma ala separada, destinada àqueles que apresentam sérios riscos para todos ao redor. Graveward pode não ser o álbum mais extremo do ano, mas é uma espécie de trilha sonora apocalíptica para os mais conturbados delírios e oscilações de sanidade que o ser humano pode suportar.


Wilderun - Sleep at the Edge of the Earth

Como uma viagem de navio com o objetivo de explorar águas desconhecidas em busca de um novo lar, o Wilderun zarpa com carregamentos infinitos de sonhos, esperança e conhecimento com ambição que pouco se vê entre os aventureiros de hoje. Sentimentos que permanecem desde os momentos de calmaria e vento constante do folk e da música americana e irlandesa até as mais turbulentas ondas que o melodic death e o black metal podem carregar em suas tormentas, sempre de forma grandiosa, em melodias megalomaníacas e arranjos que parecem preencher todo o vazio. O horizonte para esses americanos parece ser infinito.


Intronaut - The Direction Of Last Things

Você já deve ter se encontrado completamente perdido. Sem a menor ideia de onde está, quem são as pessoas ao seu redor e, talvez o pior, como mudar isso. E se, por alguma razão inexplicável, esse que pode ser motivo de completo desespero na realidade se mostra ser exatamente aquilo que você sempre esperou? Esse é mais ou menos o contexto que o Intronaut cria em The Direction of Last Things: um universo de camadas sem fronteiras, unindo as diversas personalidades conflitantes do sludge e do post-metal usando o rock progressivo e o jazz como adesivos naturais. Complexo e confuso. Até você abrir os olhos e entender o que está acontecendo.


Tesseract - Polaris

O djent é uma espécie de experimento mal sucedido em uma boa trama de ficção científica, que foge do controle de seus criadores e escapa de sua prisão. O Tesseract parece ser uma inteligência artificial impossível de ser exterminada, a princípio perdida, e que eventualmente encontrou seu próprio caminho. O retorno de Daniel Tompkins finalmente tornou possível a criação das ferramentas para ascender à atmosfera, um ambiente de tranqüilidade sem se preocupar com os excessos técnicos, de forma que a artificialidade plane paralela ao sentimento em Polaris.


Paradise Lost - The Plague Within

Uma amálgama polida, reluzente ao menor indício de luz, livre das impurezas e representativa de tudo o que é o death e o doom metal. Assim pode ser definido The Plague Within. Tudo o que o Paradise Lost carrega em sua essência ao longo das décadas, um resultado de todos os tortuosos caminhos lúgubres pelo qual eles se arrastaram.


Baroness - Purple

Purple é um álbum sobre reconstrução. Sobre alguém que se levanta após cair em um chão de concreto, com olheiras, o nariz quebrado e alguns dentes a menos, cicatrizes que demorarão para fechar enquanto a chuva cai insistente. Sobre pessoas que são derrubadas por um fato mundano e erguem-se ainda mais fortes. O Baroness esteve na lama. E foram nesses sentimentos de dor e incerteza que a fundação para o seu novo trabalho se formou. Um trabalho que apenas é o que é, com todo o seu peso opressor, de lágrimas e sangue, por ser uma cria da tragédia.


The Dear Hunter - Act IV: Rebirth in Reprise

Após atravessar as mais diversas regiões e influências no grandioso projeto The Color Spectrum e retomar a simplicidade em Migrant, Casey Crescenzo leva o The Dear Hunter de volta ao conturbado e profundo cenários do universo que move a banda. Act IV: Rebirth in Reprise dá continuidade ao conceito dos três primeiros álbuns, com toda a pompa, diversidade e dinamismo dignos de um ambicioso musical barroco. Infinitas vozes, personagens complexos, instrumentais inesperados, todos combinados no objetivo comum de compor uma peça de arte resultante das experiências que a banda agregou em suas últimas incursões criativas.


Wild Throne - Harvest of Darkness

Uma das maiores recompensas de se procurar novas bandas em ritmo compulsivo é que eventualmente você se depara com algo genuinamente novo, daqueles que você não faz a mínima ideia o que esperar do conteúdo. Uma mulher dançando sobre um fundo crepuscular é um antagonismo em relação ao caos psicodélico que o Wild Throne apresenta em seu álbum de estreia: gritos insanos, ritmos alucinadamente quebrados, versos lisérgicos e aquela sensação de estar perante algo bizarro a cada virada de esquina, acompanhados por uma melodia que invade a memória por mais esquisita que possa parecer. O power trio americano explora os lados mais conturbados da psicodelia no heavy metal e definitivamente traz algo de relevante da forma mais hipnótica possível.


Steven Wilson - Hand. Cannot. Erase.

Certas obras marcam você de alguma forma, às vezes para sempre. O trecho de uma melodia que você se pega assobiando em momentos avulsos, um verso que volta a sua mente quando algo acontece e você imediatamente se identifica, uma capa icônica que assombra a memória ou uma história que faça você pensar sobre a sua própria vida. Particularmente, esse é o impacto que Hand. Cannot. Erase. teve em 2015. Não estamos falando da parte musical, se é inovador ou não, mas sim em como um simples disco pode ser o suficiente para você olhar mais uma vez por cima de seus ombros e pensar sobre todas as suas escolhas e em todos que estão ao seu redor. Pensar em como pode ser possível algumas pessoas conseguirem viver diariamente sem ter a arte como parte importante de suas vidas.


Periphery - Juggernaut

Mas ora, se Hand. Cannot. Erase. tem todo esse impacto, por que não é o primeiro colocado da lista? Simples. Ele é um disco pra ouvir sozinho, em casa. Que invariavelmente vai te deixar mal (dependendo da situação, mal de verdade). E talvez apenas algo como o Juggernaut possa te resgatar. Um trabalho lançado por uma banda que efetivamente está levando o heavy metal para um novo contexto, não apenas de experimentações musicais, mas principalmente de atualizá-lo e colocá-lo dentro de um panorama condizente com a nossa realidade em pleno 2015. Tanto nos conceitos abordados nos discos gêmeos, na produção e no instrumental, quanto no senso de urgência, de sentimentos conflitantes que o Periphery trata nestes mais de oitenta minutos. Ou, simplificando? São músicas que você continuará cantando junto daqui vários anos e lembrando como elas podem ter sido importantes na época, independente do motivo. Talvez seja isso que torna um álbum em algo especial (Nota do editor: melhor disco de 2015 para Rodrigo Carvalho).

Veja também:
Meus discos de 2015, por Ricardo Seelig
Melhores do ano - 2015

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