Festival: In-Edit Brasil 2026

Ontem (17), começou a 18ª edição do In-Edit Brasil, tradicional festival de documentários musicais. Até o dia 28, presencial e online, tem muita coisa boa para assistir nos cinemas, além de toda programação paralela ao longo de todo evento.

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“Ninguém Pode Provar Nada – A Inacreditável História de Ezequiel Neves” (2025)

Um personagem como Ezequiel Neves, conhecido por muita gente por ser o “descobridor” do Barão Vermelho e encaminhar a banda com Cazuza nos vocais foi tanta coisa e esteve em tantos lugares, que um documentário é pouco para contar a história de quem foi ator, produtor de peças, jornalista, produtor musical, pesquisador, enrolador profissional, mentiroso de primeira e um exímio contador de causos.

Infelizmente, “Ninguém Pode Provar Nada – A Inacreditável História de Ezequiel Neves” conseguiu a proeza de ser um documentário ruim sobre essa pessoa fascinante, que transitou em tantos lugares e conheceu tanta gente em tantos lugares.

Pretensioso do início ao fim, o trabalho conseguiu deixar a narrativa chata e desinteressante, algo muito longe do personagem, e o excesso de Ezequiel na tela é cansativo. E ainda tem uma parte ficcional desnecessária que, junto com o uso de inteligência artificial na manipulação de imagens e de áudios do produtor (morto em 2015), não acrescenta em nada e só deixa tudo ainda mais amarrotado.

É uma proeza e tanto conseguir fazer um filme ruim tendo um bom material de arquivo nas mãos e acesso a tantas testemunhas das peripécias de Ezequiel Neves pelo mundo. Tem hora que, como diria aquele famoso chef de cozinha, menos é mais.

“Vou Tirar Você Deste Lugar” (2025)

Odair José ganhou novos fãs nos últimos anos, transformando o rejeitado álbum “O Filho de José e Maria” em um clássico tardio e em um dos trabalhos mais aclamados da música brasileira. Mas ele também é dono dos clássicos “Eu Vou Tirar Você Deste Lugar”, “Uma Vida Só (Pare de Tomar a Pílula)” e “Deixe Essa Vergonha de Lado”, que embalaram o Brasil no início dos anos 1970. Por isso, ele mesmo não sabe o lugar que ocupa na música popular brasileira.

“Vou Tirar Você Deste Lugar”, dirigido por Dandara Ferreira, até tenta encontrar, mas não consegue. Com apenas Odair falando, o que não é um problema, o roteiro não se aprofunda o suficiente e pula de questão em questão. Além disso, os problemas técnicos no som (para um documentário musical, isso é quase um crime) e na cor incomodam muito — usaram um filtro horroroso em parte das imagens, enquanto em outras parece o arquivo cru da câmera, sem qualquer tratamento.

Apesar disso tudo, é bom ver Odair falando da própria carreira e com liberdade para explicar o teor das letras das músicas, os problemas com a ditadura e como ele foi o próprio inimigo em um momento crucial da carreira, quando deixou de ser o maior vendedor de discos do Brasil para ficar no ostracismo.

A torcida fica para a versão exibida no festival não ser a final e que as correções necessárias sejam feitas. Um artista como ele, com uma obra tão bonita, não merece um documentário cheio de problemas técnicos que empobrecem e tiram força da narrativa.


 “Fernanda Abreu – Da Lata 30 Anos” (2025)

Ao longo da história, a música brasileira teve uma série de discos clássicos que, de uma forma ou de outra, marcou uma geração. “Da Lata”, de Fernanda Abreu, lançado em 1995, entra nesse hall de trabalhos marcantes justamente por retratar um período específico em que as coisas estavam mudando.

Ex-vocal de apoio da Blitz, a cantora partiu para carreira solo e, como ela mesmo diz, ganhou o respeito para fazer o que bem entendesse no terceiro álbum de estúdio da carreira. Em “Fernanda Abreu – Da Lata 30 Anos”, ela e vários personagens importantes contam como o trabalho nasceu, não só focado na mistura musical, mas no espírito dela daquela época.

Inquieta, controladora e criativa, Fernanda Abreu contou com a ajuda de uma equipe de primeira, incluindo os produtores Liminha e Will Mowatt, para fazer do álbum um tremendo sucesso. Uma pena que toda inventividade não se reflita no documentário, conservador do início ao fim na forma, na direção de Paulo Severo e no conteúdo — as imagens de arquivo das gravações dão certo brilho ao trabalho.

O longa, produzido pela cantora, é bom o suficiente para contar essa história e relembrar de um período criativo e cheio de energia de uma cena que nascia para fazer história.


 “Unisono” (2026)

Para quem toca música clássica, os ensaios são fundamentais para não apenas conhecer o repertório, mas também para ajustar como cada instrumento deve soar aos ouvidos do maestro nas interpretações de cada peça. Com direção de Georges Gachot, “Unisono” acompanha uma série de jovens músicos que precisam aprender um repertório clássico em meio a chegada do pianista finlandês Iiro Rantala.

Cada instrumento traz uma história por si só, também carregada por cada um que toca. De músicos que desejam ser profissionais até quem está lá para participar porque gosta de música, o documentário não se aprofunda nas pessoas e opta por uma abordagem musical, em que o papel de cada um na orquestra é o ponto central. Em algo assim, não existem coadjuvantes; todos são importantes.

Contemplativo e sonhador, o longa é parado e aposta nas imagens bucólicas do lugar, uma igreja, para mostrar a imersão de oito horas diárias de ensaios, correções, brincadeiras e sonhos desses jovens, preparados para algo muito maior dali poucos dias. Gachot é certeiro ao acertar o tom, como um bom maestro regendo uma orquestra.

“Massa Funkeira” (2025)

O sexo sempre foi assunto no funk. Se antes todo mundo dependia do rádio e da TV para fazer sucesso e, por consequência, as letras não podiam ser diretas — basta olhar todos os sucessos dos anos 1990 e 2000, quando o assunto era abordado com piadas e jogos de palavras inteligentes —, agora a coisa mudou completamente de figura. Esse é o retrato de “Massa Funkeira”.

A direção de Ana Rieper é sem hipocrisia e sem pudor: o assunto é abordado pela ótica de quem está 100% envolvido nisso, seja cantando, dançando ou produzindo. E até gênero virou, o famoso funk proibidão, que mudou a cara do estilo musical ao trazer uma nova geração que fala sobre o assunto com as palavras corretas, sem enrolação.

E como tudo na vida, há uma série de camadas nisso. Desde tentar sair da pobreza com o sucesso até violência e abuso sexual, o longa também emociona pelas histórias que não deveriam acontecer, mas, infelizmente, são mais frequentes do que queremos.

A música feita, com letras brutalmente honestas, é fruto de uma geração que queria mais e foi atendida, em um recorte valioso de um Brasil cada vez mais empurrado para fora da grande mídia, mas decidiu sobreviver por conta própria e do seu jeito.

“Hip Hop Caboclo” (2025)

O músico Gaspar Z’África e o diretor João Nascimento uniram forças em uma viagem pelo Brasil, especificamente o Norte e o Nordeste, para conhecer um pouco mais das culturas locais e se aprofundarem em alguns personagens fundamentais para a música e o folclore locais, tudo isso misturado com o hip-hop que corre nas veias de ambos.

Aqui, diretor vira personagem, entrevistador vira personagem, os entrevistados começam a cantar do nada e embalam em assuntos importantes como ancestralidade, histórias, música folclórica e rituais religiosos, sempre ouvindo os mais velhos, com muito respeito, do que falando.

Durante os créditos, as homenagens aos que já se foram tomam algum tempo, mostrando como o mundo contado por eles fica cada vez mais na lembrança em meio ao turbilhão da vida. Com isso, “Hip Hop Caboclo” deixa de ser apenas um documentário para se tornar um importante relato sobre uma geração de artistas que deixou um importante legado. Agora, é saber o que fazer com tudo isso.

“Cheech & Chong’s Last Movie” (2024)  

Formado por um filho de mexicano e um filho de chinês, a improvável dupla Cheech & Chong fez um enorme sucesso nos Estados Unidos nos anos 1970, em meio a contracultura, o movimento hippie, a busca pela paz interior, nos protestos contra a Guerra do Vietnã e todo movimento de mudança de geração, eles estavam lá, abrindo o show dos Rolling Stones e fazendo esquetes para 20 mil pessoas.

“Cheech & Chong’s Last Movie” tem direção de David Bushell e conta com alguns trunfos na manga. O primeiro deles são as partes em animação, sempre engraçadas e muito, muito boas mesmo — foi um dinheiro bem gasto no orçamento. Depois, temos a viagem de carro do agora senhores de idade que traz participações especiais importantes, na parte mais ficcional do trabalho que também funciona muito bem.

Por fim, a pesquisa e a edição se complementam muito bem porque dão ritmo à narrativa, focada nas histórias individuais até a união dos dois para fazer história na parada musical e nos cinemas, com grandes bilheterias nos primeiros filmes da carreira.

Entre reminiscências sobre os erros, a quebra de confiança e as próprias crises, os dois levam tudo com alguma leveza, sem deixar o humor de lado — principalmente as piadas envolvendo o uso excessivo de maconha. No fim das contas, a dupla segue firme e merecia ter a história contada em um documentário que é a cara deles.


“Apopcalipse Segundo Baby” (2026) 

Quando alguém decide juntar material de um determinado personagem, geralmente objeto e pessoa podem se confundir em uma relação de intimidade que pode prejudicar o andamento do trabalho — seja pela amizade criada no processo, seja pela descoberta de determinadas coisas. Em “Apopcalipse Segundo Baby”, Rafael Saar encontra o caminho do meio para retratar todas as facetas de Baby do Brasil em 73 anos de vida.

Da voz potente dos Novos Baianos, a carreira solo com o marido e guitarrista Pepeu Gomes e a carreira solo sem ele, tudo isso sempre foi pincelado com uma dose, maior ou menor, de religiosidade, única coisa sempre presente na vida dela desde sempre.

Acompanhando a cantora ao longo de quase 20 anos, Saar transforma o rico material em um documentário acima da média e, munido com imagens de arquivo e entrevistas muito íntimas, ele traça um retrato de uma personagem muito fascinante, que não deixou de cantar os sucessos, mas sempre fala de Deus ou cita a Bíblia em algum momento — no palco ou fora dele.

Sem precisar apresentar os personagens em tela e contando com uma edição de bom ritmo, o documentário relembra os principais momentos da carreira e passa pela transformação de Baby Consuelo para Baby do Brasil, tudo pontuado e explicado pela própria cantora ao longo dos anos, incluindo o nome de todos os seis filhos.

O documentário é um bom exemplo de estudo de personagem ao longo de vários anos e como conseguir condensar todo material em um filme de boa qualidade.


“Universo Circular - Jocy De Oliveira” (2026) 

Jocy De Oliveira é uma virtuose do piano desde a infância e, desde muito cedo, teve a chance de tocar os melhores instrumentos, nos melhores palcos e ter contato com os melhores da profissão — ela foi amiga de Igor Stravinsky e de Karlheinz Stockhausen, dois dos maiores maestros de todos os tempos no século XX.

Ela poderia ter a própria vida destrinchada em um documentário simples e careta, mas não é o caso de “Universo Circular - Jocy De Oliveira”, de Dácio Pinheiro. Mais um longa fora da casinha, tanto na escolha estética, quanto na edição, que acompanha o ritmo inventivo da personagem principal.

Entre fotos, cartas, imagens de arquivo, momentos importantes da vida e da carreira, Jocy de Oliveira não ficou apenas no piano clássico, sendo fundamental na chegada da música eletrônica no Brasil ao participar de projetos experimentais fora do país quando decidiu expandir os próprios horizontes musicais — ela conheceu o músico vanguardista John Cage, um dos melhores de todos os tempos.

Uma vida assim merecia até mais do que um documentário de pouco menos de uma hora e meia, porém o que vemos aqui é a vida e obra de uma das pessoas mais importantes da música brasileira que, como acontece muito, é mais valorizada lá fora do que aqui.

 
“O Homem do Fraque Verde” (2025)
 

As histórias do Brasil são recheadas de mitos e coisas que só acontecem naquele local específico em um momento específico do ano. É o caso da história do Homem da Meia-Noite, que abre o carnaval em Olinda desde o  final da primeira metade do século XX.

Filmado em 2021 e só lançado agora, o documentário de Petrônio Lorena acerta nos entrevistados, que misturam o sincretismo religioso, a história real da criação do boneco e outros elementos importantes na composição desse momento importante e esperado pelas pessoas — o ponto negativo é a parte da animação, excessivamente longa e tira todo ritmo da narrativa.

Mas, no resto, a edição e a direção de fotografia são muito boas para captar a importância do Homem da Meia-Noite para uma multidão de pessoas. E é isso que torna este documentário tão fascinante: como a chegada de um boneco gigante pode levar tanta gente a não só se amontoar nas ruas apertadas, como ainda acredita que ele é quase um santo? É esse tipo de coisa que torna o Brasil um lugar tão incrível. 


“Gritos De Agonia - Uma História Do Movimento Punk Hardcore Em Belém Do Pará” (2025)

A cena musical de um lugar nem sempre acontece no mainstream e, muitas vezes, os personagens daquela cena só são conhecidos muito tempo depois de tão escondidos que estavam naquele mundinho próprio e construído tijolo a tijolo. É um retrato assim que Márcio Crux conta em “Gritos De Agonia - Uma História Do Movimento Punk Hardcore Em Belém Do Pará”.

Muito se fala da cena punk e hardcore de São Paulo nos anos 1970 e 1980, que acabou gerando alguns dos nomes mais famosos dos gêneros, mas havia algo semelhante acontecendo em várias partes do Brasil, incluindo Belém, capital do Pará. E, como muita coisa por aqui, tudo foi feito de maneira muito precária, sem recursos e com muito amor de todos os envolvidos, seja tocando, seja produzindo.

Uma pena que a edição se perca um pouco nos momentos finais, tornando a narrativa repetitiva ao prolongá-la em excesso — além de uns probleminhas no áudio que incomodam um pouco. Com o foco certo, nos anos 1980 e 1990, por exemplo, o documentário teria um enorme potencial para ficar redondinho. Infelizmente, não é o caso.

 

“The Last Critic” (2025)

 Com mais de 17 mil discos resenhados e autoproclamado decano da crítica musical estadunidense, Robert Christgau segue com a mesma energia, vitalidade e interesse de quando começou há mais de 60 anos. Usando a entrega do famoso Consumer Guide como pano de fundo, Matty Wishnow faz de “The Last Critic” uma grande homenagem a um ofício que está morrendo: o jornalismo.

O longa mostra um crítico ainda muito firme para falar sobre o próprio trabalho e criticar os artistas que detesta — Cat Stevens, James Taylor, rock progressivo e metal farofa estão entre eles. Mas também é sobre jornalismo e cuidado com as palavras, revisadas uma a uma nos textos impressos antes de serem publicados no Substack e no site, ainda preservando a mesma estética da internet dos anos 1990.

Como todo crítico, é referência para todos os jornalistas que vieram depois dele (ainda que discordem do teor de alguns textos) e odiado por alguns músicos por conta de avaliações consideradas injustas na época e ainda reverberam na cabeça muitos anos depois (Thurston Moore que o diga sobre o Sonic Youth).

Definitivamente, Christgau não é o último crítico, mas, com certeza, é o último de um jornalismo que vemos em filmes antigos e, de alguma maneira, quem entra ou entrou na faculdade de jornalismo sonhou ou sonha em ser. Com uma coleção enorme de discos, vinis, fitas cassete, livros sobre música e cirurgias, ele pensa na finitude da vida quase diariamente, tudo isso recheado de depoimentos de amigos e admiradores em uma edição simples.

Mas também diariamente ele pensa e vive a música como um poucos, em uma dessas relações intrínsecas que só acabará quando o fim chegar. Até lá, o cuidadoso texto segue gerando expectativa nos fãs, que ainda veem nele um farol em meio a todo barulho.

 
“Ary” (2025)

Dentre os muitos personagens importantes da música brasileira caindo no esquecimento nos últimos anos por uma série de motivos, um dos mais importantes é Ary Barroso (1903-1964), compositor de inúmeras marchinhas de carnaval e de músicas para filmes da Disney, tem a história contada em “Ary”. 

Dirigido por André Weller, o documentário de nome simples usa e abusa do recurso de ficcionalizar determinadas passagens, o que cansa um pouco, mas acerta ao colocar o ator Lima Duarte para narrar alguns trechos de cartas escritas pelo compositor — momento de alguma graça no trabalho.

De resto, o longa traz uma edição convencional que não dá a profundidade necessária ao personagem, ainda que as imagens inéditas de Ary Barroso tragam algum alento sobre o trabalho da pesquisa. Um personagem desse calibre e importância merecia um pouco mais.


“Nativo” (2026)

Confesso que, quando li a sinopse de “Nativo, não fiquei muito empolgado para assistir, mas ainda bem que dei uma chance ao documentário dirigido por Vladimir Cunha sobre Ruy Barata, compositor e um dos grandes personagens da cultura paraense.

Ao optar por números musicais com nomes da nova geração local, atores para declamar algumas das poesias escritas por ele, depoimentos, imagens de arquivo e uma montagem nada convencional, o longa ganha muito com essa mistura completamente fora da casinha e deixa tudo mais saboroso.

Perseguido pela ditadura, ele foi de tudo um pouco, mas foi, principalmente, fundamental para escrever sobre o povo que tanto observava nas calçadas dos bares que frequentou ao longo da vida. Ainda bem que saí de casa para ver um filme que quebra a expectativa ao retratar um personagem fascinante fundamental para o sucesso de, entre outras pessoas, Fafá de Belém.


“Quando A Gente Vira Um - Mestre Ambrósio” (2026) 

Muitas bandas acabaram e voltaram ao longo dos anos, seja por necessidade artística, seja por dinheiro. O Mestre Ambrósio foi uma das bandas mais legais e importantes dos anos 1990 no Brasil, embalada pelo movimento manguebeat e toda efervescência daquele período cheio de mudanças. E, após tudo isso, ficou 18 anos sem subir no palco.

Formado por Siba, Eder “O” Rocha, Helder Vasconcelos, Sérgio Cassiano, Mazinho Lima e Mauricio Bade, a banda tem a história contada de maneira simples e bem efetiva em “Quando A Gente Vira Um - Mestre Ambrósio”, com direção de Cláudia Dias Perez Machado e Shinji Shiozaki, em que eles usam 90 minutos para contar como eles formaram um grupo cheio de referências em meio às próprias descobertas musicais ainda na juventude.

Com depoimentos de todos os integrantes e de quem estava lá quando tudo foi acontecendo, o documentário é simples na estrutura e usa tanto as imagens de arquivo, quanto as fotos do período. É nessa simplicidade que entendemos toda a força do grupo que, mesmo após quase duas décadas sem tocar, ainda ressoava por aí de alguma maneira.

“Pontos De Força” (2026) 

Mateus Aleluia foi personagem de alguns documentários nas edições mais recentes do In-Edit Brasil e a 18ª edição do evento traz mais um, agora dirigido por Vânia Lima. Ainda é sobre música, mas a diretora vai um pouco mais além de “Pontos de Força”.

Filmado em dois períodos diferentes e com sete anos de diferença entre eles, o longa explora a religiosidade em espaços de paz e respeito de quem frequenta. Além disso, podemos conhecer um pouco mais da vida do cantor na infância, representada por um menino que surge no longa para representá-lo nesse período importante.

Muito mais do que a música, “Pontos de Força” evoca toda religiosidade de Mateus Aleluia, essa quase entidade da música brasileira que conseguiu uma nova chance na carreira na última década ao ser redescoberto por uma nova geração de fãs. Delicado e poético, o filme avança em pontos importante para entendermos que a fé e a música desse personagem nunca caminharam de maneira separada.


“Sun Ra: Do The Impossible” (2025) 

Sun Ra foi um dos músicos mais visionários do século XX ao fundar a própria gravadora muito antes de isso ser moda, explorar ao máximo várias formações da própria banda e criar o próprio mundo — ele afirmava vir de Saturno e ser um anjo. Dirigido por Christine Turner, “Sun Ra: Do The Impossible” conta um pouco a história desse personagem tão controverso quanto fascinante.

Nascido Herman Poole Blount, ele começou na música muito cedo, mas sofreu quando, por filosofia de vida, recusou combater na Segunda Guerra Mundial. Acabou preso e isolado da família e dos amigos na própria cidade onde morava. Foi para Chicago, lugar cheio de músicos e onde poderia ter uma chance na carreira. A partir desse movimento, a vida dele não foi mais a mesma.

Tudo isso é contado pelas pessoas que trabalharam com ele e que falam com admiração da criatividade e nem tanta admiração assim quando os assuntos terrenos vinham à tona, principalmente quando envolvia dinheiro ou a vida pessoal.

O filme tem depoimentos de alguns músicos e várias imagens de arquivo de entrevistas, mas chama a atenção a quantidade de pesquisadores que falam sobre Sun Ra, uma pequena mostra de como ninguém, sozinho, consegue entender o tamanho desse homem, o pai do Afrofuturismo e que, como ele mesmo disse, fez “música para ser admirada dali 20, 30 anos”.


“Canto Da Gente – Um Filme Sobre Os Tápes” (2025) 

A música brasileira é gigante e, muito provavelmente, mesmo se qualquer um de nós dedicar 24 horas por dia para ouvir, jamais conseguiríamos ouvir todo material lançado. Por exemplo, não tinha ideia da existência do grupo gaúcho Tápes, fundado em meados dos anos 1970 e com disco lançado pela gravadora Marcus Pereira.

“Canto Da Gente – Um Filme Sobre Os Tápes” foi dirigido, escrito e editado por Matheus Borges, a quem conheci no finado Twitter com o projeto musical Nosso Querido Figueiredo e que vem conseguindo espaço na literatura com “Mil Placebos” e “Frankito em chamas”.

O longa é todo feito com imagens de arquivo de entrevistas feitas com os principais integrantes e com imagens caseiras de conversas entre eles. Aqui, o trabalho de montagem é muito bem feito, assim como o da pesquisa para encontrar imagens e matérias sobre a ascensão do grupo na cidade de mesmo nome e dali para ganhar a chance de gravar um disco e fazer turnês internacionais.

Sem nunca estourar de fato e com várias formações ao longo de quase 20 anos de existência, o grupo encerrou as atividades no fim dos anos 1980 e cada um foi para o seu canto. Mas conhecer essa história é fundamental para entender como esse tipo de resgate é extremamente necessário para entender a grandeza da nossa música.

"El Canto De Las Manos" (2025)

O venezuelano Gustavo Dudamel, se quisesse, poderia apenas colher os louros da fama de ser o maestro mais famoso do mundo atualmente. Mas ele, ao contrário de toda uma nova geração de pessoas com alguma fama, usa a repercussão do trabalho para ir além de qualquer expectativa ao montar a ópera Fidelio, de Beethoven, em linguagem de sinais.

É muito difícil não encher de adjetivos a estreia na direção da atriz espanhola María Valverde em "El Canto De Las Manos", quando ela acompanha o processo de escolha do elenco, focado em três personagens, do processo em transformá-los em atores e atrizes, além de contar um pouco da história de vida de cada um, os percalços e a dor e a beleza de encampar um projeto tão importante. 

Os grandes trunfos do longa estão na edição, que consegue mostrar com delicadeza a situação de cada um sem trazer aquele sentimento de pena pela situação e no som, principalmente pelo respeito máximo ao silêncio, na condução das sensações e em saber a hora certa de aumentar o volume — e ainda tem voice over (quando só a voz da pessoa aparece na tela, mas com outra imagem) de uma pessoa surda fazendo linguagem de sinais, uma das coisas mais incríveis que assisti no ano.

Valverde sobe a régua dos documentários musicais ao mostrar ser possível filmar qualquer situação e se adaptar aos personagens, não o oposto, para contar uma história incrível de como qualquer barreira pode ser superada se existir a união de uma comunidade para dar apoio a quem precisa. E de como não existe obstáculo para o talento, basta ter um bom olhar e boa vontade.

"Agridulce" (2025)

Localizada na América Central, a República Dominicana tem, assim como todos os países da América Latina, uma grande e bonita tradição musical passada de geração em geração. Na Academia de Bachata, em Cabarete, crianças têm aulas com o renomado guitarrista Mártires de León para de desenvolver e seguir o próprio caminho.

Ao longo de cinco anos, o diretor Frank Pavich acompanhou esse processo de formação e fez o longa "Agridulce". O título combina muito com o tom do filme: ao mesmo tempo que essas crianças crescem com a música e passam a mostrar habilidades, a pressão em precisar melhorar traz esse sentimento agridoce de que eles parecem perder um momento único na vida, enquanto as outras crianças não passam por isso.

As boas e diversas histórias não focam apenas no crescimento pessoal e profissional das crianças, mas dos adultos também dentro desse processo de cobrança e aprendizado em um documentário simples na montagem e focado nessas relações humanas em um processo penoso e cheio de curvas em que todos, de alguma maneira, crescem juntos.

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