sexta-feira, 21 de março de 2014

Discos para história: The Rolling Stones, dos Rolling Stones (1964)


A 41ª edição do Discos para história fala da estreia em estúdio dos Rolling Stones. Inspirados pelos mestres do blues americano, a banda optou por lançar um trabalho recheado de covers e da energia que emanavam quando tocavam ao vivo.

História do disco

Entre o primeiro encontro entre Mick Jagger e Keith Richards, quatro anos foram necessários para achar pessoas que gostassem de blues tanto quanto eles; para achar interessados em ter uma banda; para convencer Charlie Watts a ser o baterista; para fazerem o famoso circuito de casas noturnas; para conhecerem o desmiolado e genial Brian Jones; e, por fim, para encontrar o empresário Andrew Loog Oldham que, por ter trabalhado com Brian Epstein, tinha contatos suficientes para fazer dos Rolling Stones um estouro.

Nesse período, o tecladista Ian Stewart foi demitido, mas ficou como membro de apoio e ajudava o máximo possível aos amigos nos momentos mais difíceis. Olhando agora, 50 anos depois, um grupo formado por Jagger, Richards, então Richard, Watts, Jones e Bill Wyman dificilmente faria sucesso. Eram perfis muito diferentes, vivências diferentes e jeitos de lidar com as coisas de maneira que seria difícil a convivência. Mas o amor pela música era inabalável naqueles dias em que a comida era pouca e a farra era muita.


Oldham viu que esses rapazes ingleses, mesmo com um vocalista de sotaque engraçado, tinha talento para conseguir subir nas paradas. E ele também queria mostrar seu valor como manager, então ele foi à gravadora Decca e conseguiu um contrato muito melhor do que os Beatles haviam conseguido em sua primeira negociação. Na verdade, era um contrato com termos inéditos para uma banda que não tinha nenhum single de sucesso, tampouco tinham gravado um disco.

Com uma boa base de fãs graças aos shows que faziam pelas casas pequenas do Reino Unido, os Rolling Stones viram que a vida estava começando a melhorar para todos. O primeiro single, um cover de Chuck Berry, foi lançado e chegou ao 21º lugar das paradas. Isso era um feito e tanto – muito graças aos esforços da gravadora e do empresário, que viam nos Stones um possível concorrente ao fenômeno Beatles.

Ainda sem uma canção inédita, Oldham percebeu que gastaria uma fortuna em direitos autorais para artistas, então teve uma ideia para fazer a dupla Jagger/Richards funcionar como compositores: trancou os dois em um quarto e só abriria a porta quando tivessem uma canção. Foi desse esforço que saiu "Tell Me", primeira composição dos dois que estaria no LP.

Quatro meses antes de embarcarem para uma catastrófica primeira turnê nos Estados Unidos, eles precisavam gravar um álbum minimamente decente. Como não tinha composições inéditas, o jeito foi apelar ao repertório ao vivo para ter o primeiro LP. Gravado entre janeiro e fevereiro, The Rolling Stones foi um marco na carreira do grupo, mesmo apenas refletindo o que eles faziam ao vivo.

Mesmo recebendo os créditos como produtor, Oldham não moveu uma palha durante o processo de gravação, e Eric Easton ficou com a maior parte do trabalho duro, recompensado pelo número um nas paradas do Reino Unido daquela semana - o disco foi lançado no dia 16 de abril de 1964. Era o que os Rolling Stones precisavam para serem conhecidos nacionalmente e avançarem em suas carreiras.



Resenha de The Rolling Stones

Clássico do blues americano, “Route 66” abre os trabalhos e mostra que nem sempre Mick Jagger teve a voz afetada que tem hoje em algumas canções. Ela conta a história do trajeto que os motoristas passam de St. Louis até chegar à Califórnia, e a seção rítmica já compensa a audição por estar extremamente afiada. A segunda faixa, "I Just Want to Make Love to You", ficou conhecida na voz de Muddy Waters e ganhou uma versão com a gaita tocada de maneira impecável por Brian Jones.

De Jimmy Cliff, "Honest I Do" ficou sensual e cheia de nuances, e não é difícil imaginar as meninas pirando ao ver Jagger cantando. Aqui a guitarra ao melhor estilo sul dos Estados Unidos está muito boa, mostrando que Keith Richards estava se aperfeiçoando cada vez mais no instrumento. Bo Diddley e Buddy Holly gravaram "Mona (I Need You Baby)" primeiro, mas ela ganhou um tambor e um belo solo de guitarra quando os Stones trabalharam nela.



As duas canções que encerram o lado A do vinil tem a assinatura de Nanker Phelge, o codinome sugerido por Jones para que todos do grupo recebessem dinheiro pela composição. A primeira é a instrumental "Now I've Got a Witness (Like Uncle Phil and Uncle Gene)", uma balada R&B que contou com uma presença mais marcante de Ian Stewart, enquanto “Little by Little” tem a participação de Phil Spector nas maracas e soa como uma cópia de um blues mais antigo.

O lado B começa com outro blues de bar que fica no delta do Mississipi: “I’m King Bee” ganhou muito com o belo arranjo e com a guitarra slide de Jones, e todos trabalham muito bem – a sensação de que são bluseiros americanos é nítida. De longe, “Carol”, cover de Chuck Berry, era a faixa que mais chamava atenção nos shows. Rápida e rasteira, ela fazia sucesso absurdo nas casas de show por levantar o público.



Primeira canção da dupla Jagger/Richards, “Tell Me” soa como algo bem pop, mas, não ferindo os princípios, é um blues. Porém é clara a baixa qualidade em comparação com o resto, mas foi importante por marcar o território dos dois como compositores. A sequência, com a bela "Can I Get a Witness", mostra como eles eram absurdamente bons ao vivo. O coro em "You Can Make It If You Try" somado com a parte instrumental consegue superar qualquer dificuldade inicial, enquanto o encerramento, com "Walking the Dog", mostra que eles poderiam ter ficado apenas no blues. Mas o caminho era mesmo o sucesso.

O início de qualquer banda nunca é fácil, e os Rolling Stones mostram que ser um grupo de blues na Inglaterra tinha suas vantagens. Porém essa onda não seria suficiente para mantê-los como bluseiros – aliado com o empresário, Jagger transformaria os Stones em uma das melhores de todos os tempos. E esse primeiro álbum era só o início. 



Veja também:
Discos para história: The Unforgettable Fire, do U2 (1984)
Discos para história: Highway to Hell, do AC/DC (1979)
Discos para história: A Hard Day’s Night, dos Beatles (1964)
Discos para história: Dookie, do Green Day (1994)
Discos para história: Are You Experienced, do Jimi Hendrix Experience (1967)
Discos para história: Revoluções Por Minuto, do RPM (1985)

Me siga no Twitter e no Facebook e assine o canal no YouTube. Compre livros na Amazon e fortaleça o trabalho do blog!

Saiba como ajudar o blog a continuar existindo

Gostou do post? Compartilhe nas redes sociais e indique o blog aos amigos!