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sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Discos para história: We Shall Overcome - The Seeger Sessions, de Bruce Springsteen (2006)


A edição número 34 do Discos para história homenageia Pete Seeger, que morreu nesta semana aos 94 anos. Entre as muitas homenagens que recebeu em vida, uma delas foi o projeto de Bruce Springsteen para regravar canções que não eram de autoria de Seeger, mas que ele ajudou a popularizar, e tirou o limbo muitos autores desconhecidos do folclore norte-americano.

História do disco

Pete Seeger era um dos heróis da música de raiz norte-americana. Além de músico e compositor de longa data, ele também trabalhou como pesquisador e organizador de canções folk desconhecidas do grande público – seu alvo principal eram faixas de antes dos anos 1950 que, em sua maioria, se perderam com o tempo. Algumas foram tantas vezes regravadas e modificadas que o verdadeiro autor é desconhecido.

O início do projeto de Bruce Springsteen começou no final dos anos 1990, quando ele regravou “We Shall Overcome”, música mais popular do repertório de Seeger. Aliás, Springsteen foi muito inspirado pelo ídolo, seja nas posições políticas, seja nas canções que traduzem os sentimentos da população e evocam o nacionalismo de cada um. Antes de se aventurar com sucesso pelo rock, o cantor gravou dois álbuns folk por ser a esperança da gravadora em ser o novo Bob Dylan.

Sem a E Street Band pelo segundo álbum seguido, Bruce convidou músicos de Nova Iorque e Nova Jérsei para formar a Sessions Band e entrar em estúdio entre 2005 e 2006 para regravar preferidas de Seeger no que seria chamado de We Shall Overcome - The Seeger Sessions. E assim foi feito.



Logo que foi lançado, os elogios vieram rapidamente – o álbum foi chamado de “o trabalho mais ambicioso da carreira de Springsteen”. Em fevereiro de 2007, o disco venceu o Grammy de Melhor Álbum de Folk, concretizando, ainda que por linhas tortas e quase 40 anos depois, o sonho da gravadora em transformar Springsteen no novo Dylan.



Resenha de We Shall Overcome - The Seeger Sessions

A abertura do disco é com "Old Dan Tucker". Datada de 1843, ela tem várias versões diferentes e foi ganhando versos de acordo com a vontade da pessoa que a regravava – existem versões mais leves até mais politizadas. Diferente do que possa aparentar, a faixa é um folk dançante e cheio de alegria, e foi muito popular entre 1840 e 1860.

Ela fala de um escravo chamado Daniel Tucker que sempre era o último a chegar para o jantar e sempre tinha que se contentar com o resto de comida deixado pelos patrões. E é por essa história que Dan Emmett, até o último dia de sua vida, afirmou categoricamente que ele havia escrito a letra, mas, até hoje, nada foi provado e ninguém sabe quem é o autor.



Segunda faixa, "Jesse James", de 1924, é de autoria de Billy Gashade, e foi regravada por inúmeros cantores – entre eles Woddy Guthrie e Willie DeVille. Basicamente a letra é a versão americana da fábula de Robin Hood, herói do folclore inglês. Já o folk irlandês "Mrs. McGrath" data do início do século 18, e a letra conta a história de uma mãe que vê seu filho sair de casa para ir à Guerra Peninsular (um dos muitos conflitos em que Napoleão se envolveu para tentar dominar a Europa). É muito triste e traz um pouco da atmosfera do filme “O Patriota”, por exemplo.

"Mary Don't You Weep" mistura o sofrimento dos escravos com a fábula do retorno de Lázaro do mundo dos mortos na Bíblia, narrada no Evangelho de João – além de outras passagens bíblicas –, e ela usa essa fábula como metáfora para falar da Guerra Civil Norte-Americana, sendo classificada como uma canção típica de escravos. Ela foi muito popular entre os anos 1950 e 1960, quando os negros lutavam pelos Direitos Civis. Ela tem uma seção rítmica muito boa e os vocais de apoio dão uma segurança incrível no refrão.



Indo de um momento a outro na cultura americana, Springsteen canta “John Henry”, que conta a história de um homem que com martelo comum venceu um martelo a vapor em uma competição para ver quem martelava a broca em uma rocha mais rápido durante a construção de um túnel. Por conta dessa lenda, ele virou símbolo da classe trabalhadora. Alvo de livros e trabalhos acadêmicos, John Henry virou tema de uma das canções mais tradicionais do folk americano, que ganhou muito no arranjo e na voz de Bruce.

Outra história contada em música é de viajantes que tinham que passar por cima de pontes móveis que eram movidas por mulas. “Erie Canal” foi escrita por Thomas S. Allen logo depois que Canal de Erie mudou seu sistema: retiraram as mulas e colocaram motores potentes, aumentando a passagem de barcos pela região do Lago Erie ao Rio Hudson, em Nova Iorque. Aqui o violino e o banjo dão todo tom clássico para bonita faixa.



Também usando fábulas da religião como metáfora para falar da escravidão, "We Are Climbing Jacob's Ladder" tem como base o sonho de Jacó retratado no livro do Genesis. Ela ganhou um belo solo de trompete e uma bateria bem firme, e consegue colocar todo teor religioso na melodia. Avançando, Bill e Sis Cunningham são responsáveis pela composição de “My Oklahoma Home”, que fala de um homem que saiu de sua cidade natal para tentar melhorar de vida em outro lugar, mas nunca esqueceu o lugar de onde veio.

De 1949, "Eyes on the Prize" é outra que o principal autor é desconhecido. O que se sabe é que a versão que está em We Shall Overcome - The Seeger Sessions ganhou nova letra nos anos posteriores por Alice Wine. Assim como outras, ela foi muito cantada no período em que os negros lutavam pelos Direitos Civis. Já "Shenandoah" foi muito popular entre os marinheiros do século 19 e ganhou uma bela releitura com ar gospel na voz de Bruce Springsteen, enquanto "Pay Me My Money Down", relacionada aos trabalhadores da Geórgia, ficou com uma versão mais acelerada.

Quase terminando aparece “We Shall Overcome” de Charles Albert Tindley, o hino da luta pelos Direitos Civis entre o final dos anos 1950 e 1960 nos Estados Unidos. De 1948, ela foi regravada por alguns dos mais famosos cantores folk, mas ficou conhecida na voz de Pete Seeger durante os inúmeros protestos que ele participou. A faixa foi cantada por Joan Baez na Marcha em Washington, em que o famoso discurso de Martin Luther King Jr. foi feito. No trabalho de Bruce, ficou mais suave e a sensação é de recordar um tempo que não volta mais. Escrita há mais de 400 anos, a cantiga escocesa "Frog Went A-Courtin'" fala de um sapo que deseja casar com a senhora rato, mas, para isso, precisa pedir autorização ao tio rato que impõe inúmeros desafios ao pretendente. E é assim que We Shall Overcome... termina: para cima e animado.



We Shall Overcome - The Seeger Sessions é um trabalho brilhante do ponto de vista histórico, e foi a maneira encontrada por Bruce Springsteen para homenagear seu maior ídolo. E nada como regravar canções muitas vezes esquecidas, mas que foram de fundamental importância para construção e entendimento da sociedade americana.

Veja também:
Discos para história: Band on the Run, de Paul McCartney & Wings (1973)
Discos para história: The Times They Are a-Changin', de Bob Dylan (1964)
Discos para história: Led Zeppelin, do Led Zeppelin (1969)
Discos para história: Is This It, dos Strokes (2001)
Discos para história: Clube da Esquina, de Milton Nascimento e Lô Borges (1972)

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