sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Discos para história: The Times They Are a-Changin', de Bob Dylan (1964)


O segundo Discos para história de 2014 homenageia um aniversariante com cinco décadas: o segundo disco de Bob Dylan, The Times They Are a-Changin', de 1964. Depois do sucesso de The Freewheelin' Bob Dylan, o cantor folk mantinha a tradição em seu terceiro trabalho de estúdio.

História do disco

Bob Dylan estava muito bem cotado entre os críticos depois de The Freewheelin' Bob Dylan, um dos bons trabalhos de 1963 (a capa ficaria muito famosa no futuro). Desde sua chegada a Nova Iorque no início da década, ele envolveu-se com o movimento dos Direitos Civis, contra o preconceito aos negros e a pobreza, e isso aconteceu muito graças à influência que sofria da primeira geração do folk que, em sua maioria, tinham tendências à esquerda do governo.

O cantor também foi influenciado pelo amigo Pete Seeger, um dos grandes cantores folk de todos os tempos, e pela geração beat dos anos 1960 que vivia nos bares próximos de sua casa se reunindo e traçando planos para tentar melhorar a vida da população. Um dos grandes momentos dessa luta foi em março de 1963, quando Joan Baez e ele fizeram uma apresentação minutos antes do famoso discurso de Martin Luther King Jr.

Esse envolvimento foi crucial na criação e na composição do que viria a ser The Times They Are a-Changin', lançado no dia 13 de janeiro de 1964. Ajudando e divulgando ao máximo a luta contra o sistema à época, Dylan, como poucos, conseguiu traduzir o sentimento e a angústia de um povo que não tinha voz – desde os negros rejeitados em seu próprio país até moradores de cidades distantes e que contavam apenas com o básico para sobreviver.


Contando com Tom Wilson na produção novamente, o disco começou a ser feito em agosto de 1963, mas as sessões não andaram muito no primeiro mês de gravações, gerando várias canções que seriam lançadas cinco décadas depois em um dos vários relançamentos e boxes do cantor. Nesse ínterim, Dylan saiu com Baez em mais uma turnê e só voltaria ao estúdio perto do fim de outubro.

Era tão barato e rápido gravar, que apenas seis sessões foram suficientes para finalizar o trabalho com sobras – muitas das faixas gravadas entraram em Biograph, uma compilação com várias canções não lançadas entre 1962 e 1982. Depois de gravar o álbum, ele não teria um final de ano dos mais fáceis.

O assassinato de John F. Kennedy afetou os americanos de diversas formas, mas poucos ficaram tão chocados como Dylan. Segundo alguns biógrafos, esse dia foi fundamental para rever sua posição dentro do movimento que fazia parte, e foi nesse dia que ele escreveu "não há direita ou esquerda existe apenas para cima e para baixo”. Três semanas depois, ele foi receber o prêmio Tom Paine entregue pelo Comitê de Liberdades Civis, e questionou o papel de todos que estavam ali e, segundo relatos, ele via um pouco de cada pessoa na figura de Lee Harvey Oswald, assassino de Kennedy.

A recepção para The Times They Are a-Changin' não foi das melhores porque o disco tinha uma carga muito negativa sobre o futuro das pessoas, e isso não foi bem visto pela crítica e por boa parte da população, ainda em choque pela perda de seu presidente. Mas a partir desse momento, Dylan mudaria sua imagem. Saia o cantor de protestos, entrava o cara nascido em Duluth que sonhava com voos mais altos na carreira.



Resenha de The Times They Are a-Changin'

A canção-título abre o trabalho de maneira magistral, e foi totalmente inspirada nos movimentos dos Direitos Civis e na luta contra o preconceito de raças. Ela também claramente mantém a influência da música feita no norte da Grã-Bretanha dos outros álbuns – esse tipo de música, muitas vezes chamada de celta, evoluiu ao longo dos anos e virou o folk americano cantado pelos imigrantes que chegaram ao país nos séculos 18 e 19. O verso there's a battle outside/ And it is ragin'/ It'll soon shake your Windows/ And rattle your walls/ For the times they are a-changin' traz um pouco do pessimismo de Dylan em relação ao momento vivido pelos Estados Unidos.

A segunda canção é "Ballad of Hollis Brown", que conta a história do fazendeiro Hollis Brown. Ele não suporta ver a mulher e seus filhos com fome e acaba assassinando todos usando sua velha espingarda, e logo depois se mata. Assim como em todo álbum, não há segredo na parte técnica: Dylan gravou todas as faixas tocando violão e utilizou uma gaita em algumas.



Em "With God on Our Side" temos a primeira de muitas canções em que Dylan questiona o envolvimento das pessoas com Deus, o que mudaria após o acidente de moto que teve em sua fazenda na cidade de Woodstock anos depois. Citando diretamente várias guerras, civis e mundiais, ele traça o seguinte panorama: as pessoas escolhem um lado, citam Deus como aprovador de suas escolhas e pedem proteção a Ele. Assim como várias outras músicas, “With God...” foi alvo de polêmica, e Bob Dylan foi acusado de plagiar "The Patriot Game," de Dominic Behan. Apesar dos protestos de Behan, nada foi conseguido por parte do cantor mais famoso.

Os protestos somem e um quê de romantismo é colocado na bonita “One Too Many Mornings”. Encerrando o lado A, "North Country Blues" soa como uma música totalmente pessoal e cheia de referências à vida Robert Allen Zimmerman, nome verdadeiro do cantor, filho de uma família de comerciantes judeus, em Hibbing, Minnesota.



"Only a Pawn in Their Game" abre o lado B retomando o clima de protesto. Ela fala sobre o assassinato do ativista dos direitos civis Medgar Evers, negro e veterano de guerra. O assassinato dele gerou uma onda de protestos, filmes, livros, discursos e documentários sobre a situação dos negros nos Estados Unidos naquela época. A canção de Dylan trata, basicamente, sobre como o assassino se sentia culpado por ser um instrumento da elite branca que incitava brancos pobres e sem instrução contra negros de todas as classes. Já "Boots of Spanish Leather" é uma balada romântica que conta a história de um casal em diálogos. Depois o homem, abandonado por sua amada, segue sua caminhada triste e solitária.

Retomando o clima folk, "When the Ship Comes In" foi escrita depois de um momento de dificuldade: sujo, Dylan foi recusado em um hotel e Joan Baez precisou intervir para que ele fosse aceito. O cantor não era tão conhecido assim, e isso acabou o motivando em alguns protestos a favor dos Direitos Civis. Em "The Lonesome Death of Hattie Carroll”, pela primeira vez em sua carreira, nenhum tipo de referência pessoal ou do momento em que vivia foi usada para escrever uma letra, mas uma história real – no caso, o assassinato da garçonete negra Hattie Carroll por William Devereux "Billy" Zantzinger, rico fazendeiro da região de Charles County, Maryland, que pegou apenas seis meses de prisão pelo crime. A cidade foi uma das últimas dos Estados Unidos a não segregar os negros nos locais públicos. Por fim, "Restless Farewell" é romântica e cheia de metáforas, soando um desabafo do cantor às multidões.

O terceiro disco de Bob Dylan em estúdio seria o último dele como líder de um movimento para tentar mudar o mundo. Cansado de ser usado pelos esquerdistas, ele desistiu dos protestos e preferiu se concentrar apenas em sua música. Isso geraria uma grande mudança no trabalho seguinte, que sairia também em 1964, mas mudança mesmo aconteceria em 1965, quando ele acrescentou a guitarra e uma banda de apoio ao seu repertório.



Veja também:
Discos para história: Led Zeppelin, do Led Zeppelin (1969)
Discos para história: Is This It, dos Strokes (2001)
Discos para história: Hot Rats, de Frank Zappa (1969)
Discos para história: Clube da Esquina, de Milton Nascimento e Lô Borges (1972)
Discos para história: Definitely Maybe, do Oasis (1994)

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