sábado, 16 de novembro de 2013

Discos para história: Their Satanic Majesties Request, dos Rolling Stones (1967)


A 26ª edição do Discos para história fala do álbum mais experimental dos Rolling Stones, feito ainda nos anos 1960. Rejeitado pela crítica à época, hoje o trabalho é um dos representantes da chamada música psicodélica.

História do disco

Do início da formação até a consolidação, os Rolling Stones passaram pelos caminhos que qualquer banda traça no início: muitas trocas de membros e a busca da formação ideal. Já com Brian Jones, Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts e Bill Wayman, a banda vinha em uma ascensão enorme nas paradas desde o lançamento o disco homônimo.

O ano de lançamento de Their Satanic Majesties Request foi muito conturbado para Jagger e Richards, que já tinham seus nomes envolvidos em matérias de astros da música envolvidos com drogas – o tabloide ‘News of the World’, fechado há pouco tempo, era o que mais trazia os dois nas capas com manchetes que espantavam qualquer pessoa conservadora. Foi também neste período que os dois foram acusados formalmente por tráfico de drogas pela justiça londrina.


A situação só piorou meses depois. Após retornarem de uma viagem ao Marrocos, a relação entre Brian Jones e Keith azedou de vez, com o segundo retornando para casa mais cedo. E Jones, assim como seus outros dois companheiros de banda, também teve que enfrentar um processo formal por posse de drogas – o famoso Caso Redlands. Mick e Richards foram condenados a quatro meses e um ano de prisão, respectivamente, no dia 31 de julho de 1967. Surpreendentemente, parte da imprensa achou um abuso os dois serem presos, e isso meio que colaborou para que uma fiança fosse colocada como acordo para eles serem soltos. Eles pagaram e deixaram a prisão no dia seguinte. Na mesma semana em que lançaram o single "We Love You", para agradecer ao apoio dos fãs, a justiça anulou o julgamento do guitarrista e mudou a pena de Jagger para serviços comunitários em condicional. O mesmo não aconteceu com Jones.

Demitido de inúmeros lugares por roubar o caixa quando mais jovem e detido algumas vezes por porte de drogas na juventude, o histórico pesou contra Brian. Ele teve que pagar uma multa de £ 1000, uma fortuna à época, cumprir três anos de liberdade condicional e foi ordenado pelo tribunal a procurar ajuda médica e psicológica para combater o vício em drogas. Dois anos depois, no início da madrugada do dia 2 de julho, ele seria encontrado morto, aos 27 anos, na piscina de sua casa, em consequência de uma overdose de drogas. Jones havia sido demitido dos Rolling Stones dias antes.

Foi durante todo esse período conturbado que a banda trabalhou em Their Satanic Majesties Request. Quer dizer, trabalhar não foi uma coisa feita em conjunto. Devido ao grande número de problemas, processos e audiências, a formação do grupo só esteve completa uma vez em estúdio, dificultando muito o processo de gravação do sexto álbum de estúdio.

Além de tudo isso, o empresário e produtor, cercado de problemas, Andrew Loog Oldham acabou se afastando da produção. Dias depois, ele deixaria de ser o representante da banda por discordar do andamento de algumas coisas internas. Pela primeira vez, os Rolling Stones tiveram total controle do processo de gravação, algo inédito em cinco anos de banda. E o resultado gerou problemas que duram até os dias atuais.

Dos quatro membros que compõe o grupo hoje, três participaram das gravações. E Jagger, Richards e Charlie Watts renegam esse trabalho com a mesma força que tocam “Satisfaction” em seus shows. De acordo com eles, faltou alguém para colocar freio no que, segundo a imprensa, foi a resposta da banda a Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, um dos álbuns mais aclamados da história. Mesmo tão criticado, Their Satanic Majesties Request foi bem nas paradas nas primeiras semanas, chegando ao terceiro lugar. E mesmo com todas as críticas, muitos jornalistas o avaliaram de maneira positiva pelo experimentalismo e pelo fato de os Rolling Stones arriscarem um pouco na carreira – mesmo que isso nunca mais tenha acontecido.



Resenha de Their Satanic Majesties Request

O disco começa com a bonita e psicodélica “Sing This All Together” em que Mick Jagger, Keith Richards, Bill Wyman, Paul McCartney e John Lennon dividem o backing vocal da faixa, que contém tabla, saxofone, percussão e vários outros instrumentos, fazendo uma bagunça sonora bem organizada. Uma das preferidas de Keith, “Citadel” tem uma guitarra forte e que funciona muito bem com a voz de Mick.

Único single da história da banda que não tem Jagger nos vocais, “In Another Land” foi composta em um dia em que apenas um frustrado Wyman foi ao estúdio gravar. A canção nasceu de uma brincadeira dele com o engenheiro de som, mas acabou agradando Brian Jones, que sugeriu a entrada dela no tracklist final. Ela vai ao encontro da proposta do disco e é muito lisérgica, e é possível entender o que se passava naquela época. No final, é possível ouvir o ronco de Bill, gravado por Mick e Keith em um dia qualquer de outubro – no single não aparece essa parte.



“2000 Man” tem um pouco da proposta da banda ainda no início: ser uma banda de blues, por isso ela fica completamente fora do que é o álbum e está totalmente jogada. Encerrando o lado A, “Sing This All Together (See What Happens)” é uma imensa jam dos Rolling Stones e seus convidados, incluindo os dois beatles creditados, John Paul Jones, que ainda não fazia parte do Led Zeppelin, e outras pessoas que ninguém sabe ao certo quem eram.

Abrindo o lado B, "She's a Rainbow" é uma das melhores de Their Satanic Majesties Request. Começando com algo totalmente aleatório, mas que deveria fazer muito sentido, ela é uma faixa leve e tem tons beatlenianos. Não dá para saber o motivo de eles renegarem tanto essa boa canção e excluí-la do repertório. Na parte final, temos a participação de John Paul Jones trabalhando como arranjador e maestro da orquestra que fez o acompanhamento à banda.



“The Lantern” é uma letra muito, muito bonita composta por Jagger e Richards, mas foi desperdiçada por um acompanhamento apenas razoável. Melhor trabalhada, ela seria uma das grandes canções da banda. Aqui está clara a falta de alguém com pulso para falar o que estava ruim e o que estava bom. Já “Gomper” tem ritmos indianos, com Watts tocando tabla muito bem, e parece algo feito por Ravi Shankar. Se você gosta desse tipo de clima, é recomendável.

Perto do fim, “2000 Light Years From Home” é única canção do disco que foi tocada em shows. E é compreensível, pois ela fala do período em que Mick e Keith ficaram presos. Com Brian Jones no melotron, ela tem um ar de dúvida e incerteza sobre o futuro, tudo isso misturado com efeitos, overdubs e duplicações de instrumentos. O resultado é belíssimo. “On with the Show” encerra os quase 40 minutos de audição com uma mistura de uma jam da banda em um teatro com vários efeitos sonoros incluídos – a música tocada na harpa é “Pajaro Campana”, de Félix Pérez Cardozo.

Their Satanic Majesties Request está longe de ser uma obra-prima, mas também está muito distante da porcaria que pintam. É diferente e reflete um momento dos anos 1960 em que o LSD e as drogas dominavam o cenário musical. Por isso, o final da década é tão conhecido por ter canções e álbuns experimentais, e bandas fazendo coisas inexplicáveis no palco. Depois deste trabalho, eles emendariam uma sequência de quatro LPs que entrariam para história.



Veja também: Discos para história: Core, do Stone Temple Pilots (1992)
Discos para história: The Velvet Underground and Nico, do Velvet Underground (1967)
Discos para história: With the Beatles, dos Beatles (1963)
Discos para história: Quadrophenia, do Who (1973)
Discos para história: Synchronicity, do Police (1983)

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