sábado, 19 de outubro de 2013

Discos para história: Quadrophenia, do Who (1973)


Na 21ª edição do Discos para história, a vez é do The Who com Quadrophenia. Exatamente neste sábado (19), o disco da banda inglesa completa 40 anos, trabalho que encerrava a trilogia iniciada com Tommy e Who’s Next.

História do disco

O Who teve que esperar até seu quarto álbum de estúdio para fazer sucesso. O trabalho colocou o vocalista Roger Daltrey, o guitarrista Pete Townshend, o baixista John Entwistle e o baterista Keith Moon entre os melhores músicos do mundo, dando fama e prestígio aos quatro que haviam fundado o grupo no final dos anos 1960.

Vindo de dois discos consecutivos, Tommy e Who’s Next, os membros da banda estavam sem folga há um longo tempo e não tinham tempo para descansar. E isso afetava principalmente Townshend, que insistia aos companheiros para a banda tirar uma folga para descansar um pouco – a folga aconteceu e no início de 1972 não houve nenhum show.


Nesse meio tempo, eles começaram a escrever material novo, mas tudo sem muita inspiração e as canções feitas dessas sessões foram abandonadas. O que já afetava o Who era a disputa entre Daltrey e Townshend, criando um clima de tensão durante gravações e apresentações. Além disso, Moon apresentava sérios problemas por conta do uso avassalador de drogas. O ano de 1972 acabou sendo mais útil para orquestrar o material de Tommy, ao lado de Lou Reizner, do que qualquer outra coisa.

O início do ano seguinte foi muito importante, já que um novo material era esperado. Foi aí que entrou a ideia de Quadrophenia, disco inspirado no underground vivido na Inglaterra nos anos 1960 – a história de um garoto chamado Jimmy.

Existia todo um conceito por trás do novo álbum. A ideia era colocar em dois LPs uma ópera rock em que as personalidades de cada membro da banda refletissem no personagem, com cada um tendo um tema próprio dentro do trabalho. O nome não foi escolhido por nada, já que o termo quadrophenia é uma variação da esquizofrenia, distúrbio que afeta o lado psicológico das pessoas.

A construção do sexto álbum de estúdio do Who foi feita com Townshend gravando vários tipos de sons durante passeios por Londres – desde bandas tocando ao ar livre até barulhos de carros e pessoas andando nas calçadas. Tudo para dar um ar realístico à ópera rock, subgênero que colocou a banda entre as maiores do mundo naqueles dias. Além disso, a ideia de usar sintetizadores pareceu interessante, e eles foram incluídos no processo de gravação. Mas nem só de alegrias vivia a banda. Entre 1972 e 1973, eles descobriram que estavam sendo roubados pela dupla de empresários Kit Lambert e Chris Stamp, demitidos logo em seguida. Bill Curbishley assumiu o posto vago.

Lançado em 19 de outubro de 1973, o LP duplo de Quadrophenia continha muito material interessante: dois livros, um com as letras e outro com a história do personagem, e um álbum de fotos. Mas por conta da crise na OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) naquele ano – protesto dos Estados Unidos em apoio a Israel, que havia entrado em conflito com a coalizão Egito-Síria (chamada Guerra do Yom Kipur) após um ataque surpresa dos dois países ao território, criando tensão internacional, pois a URSS era contra os israelenses e, consequentemente, contra os americanos. Isso tudo gerou um aumento de 300% no preço do petróleo –, a prensagem dos LPs foi prejudicada, sendo um limitado número de cópias impressas. A produção precisou ser paralisada pouco tempo depois, deixando os fãs aflitos por não encontrá-lo.

Não demorou para o trabalho alcançar o sucesso, sendo número dois nas paradas no Reino Unido e nos Estados Unidos, atrás apenas de Goodbye Yellow Brick Road, de Elton John, posição mais alta de um disco do Who do outro lado do oceano.



Resenha de Quadrophenia

Disco 1

“I Am the Sea” começa com um som que lembra o oceano, enquanto um homem canta, e isso chama bastante atenção. As coisas mudam de figura em “The Real Me”, quando Jimmy, o personagem do principal, é apresentado em uma faixa em que o destaque é o baixo de John Entwistle.

A canção instrumental que dá nome ao trabalho é uma verdadeira ópera rock. É perceptível que há início, meio e fim na faixa que tem um quê de aventura e outro de drama. Em “Cut My Hair” temos o primeiro grande drama do personagem: adaptar-se para tentar se enturmar ou ser ele mesmo e continuar com seu visual. “The Punk and the Godfather”, encerrando o lado A, é um diálogo entre gerações. Um, mais velho, fala do que acontece quando adulto; o outro, jovem e vigoroso, segue os ensinamentos do mais velho. Música muito poderosa aliada com a guitarra potente de Pete Townshend.

Abrindo o lado B, a introspectiva “I’m One” mostra o lado mais depressivo de Jimmy, contraponto de “Cut My Hair”. É a fase da vida confiança contra os problemas do cotidiano. Em “The Dirty Jobs” temos a visão do protagonista sobre a vida comum em empregos que não pagam bem, e essa vida não é nada boa, mas ele fala em não desmoronar.



Com tons de drama, “Helpless Dancer” é carregada de uma letra pesada e um piano cheio de tensão. Aqui, temos a primeira de quatro canções temáticas direcionadas aos membros da banda – no caso dessa, Roger Daltrey é o foco principal, mostrando um cara durão, mas incapaz de dançar. Fechando a primeira parte, “Is It In My Head?” fala diretamente do problema na cabeça de Jimmy no melhor estilo tudo é verdade ou apenas um delírio? E em “I've Had Enough” ele apenas pede um pouco mais de amor.

A primeira parte trata de apresentar o personagem principal e mostra como ele é dividido. Ao mesmo tempo em que é confiante em alguns casos, mostra completa fragilidade em outros. O uso do piano traz todo um tom de drama à história, enquanto a guitarra e os efeitos colocam força e mostram que o personagem pode encarar os problemas.

Disco 2

A segunda parte de Quadrophenia começa com “5:15”, faixa que conta a história de Jimmy em um dia em que ele, drogado, pegou um trem e ficou se lembrando de algumas coisas de seu passado. Como não estava em seus melhores dias, tudo é muito confuso, mas existem pontos interessantes e tudo acaba se conectando. É uma canção que alterna leveza e raiva, sendo gritada por Daltrey em alguns momentos.

Após sair do trem, o protagonista parou na praia. E é essa história que “Sea and Send” conta em outra ópera rock brilhante – essa música também mostra um pouco do descontentamento do Who com a cena musical, dando uma ideia dos próximos passos do grupo. Jimmy entrou no mar e quase se afogou, e a letra de “Drowned”, um rock and roll bem clássico, trata disso. Terminando o lado A, “Bell Boy” é o tema de Keith Moon e é cantada pelo baterista, e fala do momento de decisão do protagonista e de decepção por seu passado.



Incluindo o tema de John Entwistle, “Doctor Jimmy” mostra um personagem encaminhando sua vida, apesar de todos os tropeços. Os tons de drama continuam na melodia, levando o ouvinte a ser perguntar o que vai acontecer no próximo passo. O folk rock instrumental “The Rock” coloca em evidencia sentimentos e a dor de uma vida cheia de drogas e confusões mentais – e também mostra todos os membros da banda melhores como nunca.

Capítulo final da história de Jimmy, “Love, Reign o'er Me” é uma redenção espiritual e continuação das duas canções finais da primeira parte. Então envolvido com os ensinamentos do guru Meher Baba, Townshend compôs o tema para pesado e reflexivo com tons suicida durante uma chuva. O personagem pensa em se matar, porque sabe que não terá outra vida se voltar para onde veio, mas ganha uma força maior, o deixando mais forte para enfrentar os problemas. Quadrophenia é uma jornada de amadurecimento nos anos 1960, época em que os membros do Who viveram. Ninguém melhor do que eles para contar essa história.



A construção do trabalho é excelente. É como uma série ou novela: é impossível não ficar ansioso pelo próximo passo do protagonista, aliado com sua doença que o transforma em quatro caras ao mesmo tempo. Uma ópera rock precisa disso, e o Who conseguiu capitalizar isso muito bem ao longo dos dois LPs em que os quatro membros da banda estão todos em seus melhores momentos na parte técnica – destaque claro é para Pete Townshend, compositor de todas as músicas e responsável pela jornada de Jimmy.

Não deve ser muito fácil criar uma história, com momentos variados de dor e alegria, e colocar tudo em um disco sequencial que beira a perfeição. Quadrophenia não merece ser apenas ouvido, mas estudado a fundo por qualquer um que goste de música.



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