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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Discos para história: In Utero, do Nirvana (1993)

A 13ª edição do Discos para história fala sobre o In Utero, último trabalho em estúdio do Nirvana. Pré-produzido no Brasil, o álbum foi lançado sete meses antes do suicídio de Kurt Cobain, o que deu fim ao grupo mais popular dos anos 1990.

História do disco

O Nirvana começou sua vida na música como qualquer banda: tocando em lugares pequenos e tentando ficar conhecido entre seus pares. Se o álbum de estreia Bleach não foi bem sucedido comercialmente, o próximo seria um dos grandes trabalhos dos anos 1990 – e um dos grandes discos da história.

Nevermind foi gravado no lendário estúdio Sound City, lugar em vários astros do rock, como Neil Young, Tom Petty e outros, fizeram alguns de seus discos. Produzido por Butch Vig, o segundo álbum do Nirvana foi aclamado por público e crítica. Forte e misturando punk e metal, a banda trouxe ao mainstream o grunge e a cena de Seattle, que contava com bandas do calibre de Soundgarden e Pearl Jam. Foi a consagração de Kurt Cobain, Krist Novoselic e de Dave Grohl.

A banda estourou nas rádios, na MTV e não parava de fazer turnês e shows pelo mundo, e isso afetou a cabeça de Cobain. Frustrado e bem puto, ele se afundou nas drogas, se casou com Courtney Love e vivia dando declarações polêmicas ou se metendo em confusões. A fama não foi algo fácil para o talentoso compositor, mas ele, em um primeiro momento, soube traduzir seus sentimentos em letras. E foi mais ou menos desse primeiro material que nasceu o embrião (perdoem o trocadilho) de In Utero, terceiro álbum de estúdio da banda.


Depois de algumas semanas procurando alguém adequado para produzir o trabalho, Kurt optou pro Steve Albini, frontman do Big Black e produtor conhecido no underground por ter trabalhado com algumas centenas de músicos. Pouco antes disso, o trio gravou demos com Jack Endino, que produziu o primeiro álbum do grupo, mas acabaram ficando com Albini.

Muito do trabalho de In Utero foi gravado na famosa passagem do Nirvana pelo Brasil no início de 1993, meses antes do lançamento. O Hollywood Rock daquele ano foi um dos mais fodas que não pude ver na vida, e foi um marco para o Nirvana. Um marco negativo, diga-se.

O show da banda no estádio do Morumbi, hoje um artigo de colecionador, é considerado o pior da história do trio liderado por um Cobain fora de si. Cheio de covers e pouca vontade, e muito agitado por João Gordo, que disse que o festival era capitalista e patrocinado por uma marca de cigarros, o Nirvana entrou no palco disposto a fazer de tudo, menos tocar bem. E conseguiu. Algumas coisas devem ser levadas em conta, como todos estarem de saco cheio e o fato de que era o primeiro show em três meses.

Ninguém no Nirvana estava feliz e, olhando de uma perspectiva de 20 anos depois, o fim estava próximo. Mesmo com os problemas internos, todos entraram em estúdio para gravar In Utero, e o trio e o produtor estabeleceram o prazo de duas semanas para gravar todo álbum. Tudo certo, tudo assinado, era só gravar.

Não confiando muito no contrato, Albini fez um pedido à banda: que eles cuidassem pessoalmente do pagamento a ele; pedido aceito sem problemas. Uma coisa interessante no processo de gravação foi que o produtor recusou-se a aceitar os royalties pelas possíveis vendas do trabalho, já que considerava “um insulto”. Uma coisa em que todos concordaram foi em não ter interferência da gravadora no processo de trabalho, então ninguém, a não ser banda, produtor, músicos convidados e engenheiro de som eram permitidos nas seções.

O ritmo de gravação foi intenso. Basicamente todos trabalharam 12 horas por dia e finalizaram o álbum em seis dias – Cobain gravou todas as vozes em meio dia de trabalho. O que não ficou muito claro até os dias de hoje era o papel de Albini no estúdio, pois Kurt tomou a maior parte das decisões a respeito da produção. Entre mixar e pós-produzir o disco, mais uma semana, entre longos dias de folga, foi necessária para finalizar todo processo.

Mas nem tudo foram flores após a finalização. A banda mandou cópias do trabalho a alguns dos diretores da gravadora, e eles, basicamente, detestaram e alegaram que o som estava ruim e o trabalho de produção havia sido abaixo do esperado – muito disso era uma resposta ao grupo, pois o nome de Albini não foi unanimidade, mas pesou o agrado do Nirvana ao nome.

Seguro do material, Cobain bateu o pé sobre refazer o álbum, mas, pouco tempo depois, admitiu que não ficara satisfeito com o que havia ouvido. Durante o trabalho de masterização, Kurt demonstrou sua insatisfação, apesar das opiniões contrárias dos companheiros de banda. Então, todos cederam e optaram pelo mais fácil, e trabalharam novamente algumas faixas. Mas havia um problema: Albini recusou-se a ceder e não queria entregar as masters à banda, o que só foi resolvido por interferência de Novoselic em uma longa ligação. Com o material e o produtor Scott Litt trabalhando duro, “Heart-Shaped Box” e “All Apologies” foram refeitas em maio de 1993, e algumas modificações técnicas foram feitas, deixando Albini insatisfeito com o resultado final.

Adotando a mesma estratégia usada com Nevermind, a DGC Records não fez grande promoção do disco, esperando que ele se vendesse sozinho, deixando Cobain ainda mais crente de que In Utero não venderia milhões de cópias como o anterior. Mas não foi isso que aconteceu.

Primeiro single, “Heart-Shaped Box” explodiu nas paradas, e o disco, lançado em 13 de setembro de 1993, vendeu 180 mil cópias na primeira semana. Basicamente o álbum, considerado ainda mais alternativo que Nevermind, vendeu absurdos pelo mundo.

A capa do In Utero foi feita por Alex Grey e mostra um anjo em carne e osso. É uma capa bonita e acabou se tornando emblemática, já que, sete meses depois, Kurt Cobain cometeria suicídio. Ali era o fim de um dos grandes compositores que a música viu.


Resenha de In Utero

Não dá para saber ao certo do que se trata “Serve the Servants”, mas a canção mostra que a vida de Kurt Cobain estava bem atribulada. Misturando assuntos, a faixa, assim como o estilo de composição do guitarrista, é bem poética e com uma métrica bem definida. O mais interessante do Nirvana é como a banda conservava o cru do som ao vivo nos discos – praticamente não existe diferença. É notável que, mesmo com todo sucesso e aparatos para fazer álbuns extraordinários, Cobain sempre optasse pelo mais simples – fruto da admiração que nutria por bandas como R.E.M, Pixies e Sonic Youth, primeiros grupos alternativos a conseguirem o sucesso.

Em “Scentless Apprentice” temos uma música mais pesada e absurdamente barulhenta e distorcida, e lembra o Sonic Youth em seus melhores momentos. A distorção e o peso da bateria e do baixo elevam o nível. A terceira faixa foi escolhida para ser o primeiro single: “Heart-Shaped Box” foi uma das duas canções refeitas no período de pós-produção e, basicamente, é uma balada à Nirvana, com um riff de guitarra incrivelmente bom. Poética e melódica, a canção foi escrita por Cobain em homenagem a uma caixa que Courtney Love havia dado a ele.

Já “Rape Me” é muito pesada na letra e na melodia. Sombria, ela é curta e tem uma variação incrível, e vai crescendo aos poucos até virar um grito de desespero de Cobain. A faixa causou muita polêmica e não foi bem aceita pelos diretores de algumas rádios, que optaram por não executá-la. No MTV Video Music Awards de 1992, o Nirvana causou polêmica ao discordar dos produtores e recusar-se a tocar “Smells Like Teen Spirit” e escolher “Lithium”, mas, em um momento de desafio, a banda tocou um trecho de “Rape Me” em rede nacional, deixando os produtores com cara de pânico. Mas tudo acabou bem, apesar de, no fim da apresentação, Cobain e Dave Grohl destruírem os equipamentos.

“Frances Farmer Will Have Her Revenge On Seattle”, que leva o nome de uma atriz norte-americana que teve vários problemas psicológicos ao longo de sua vida, é outra canção muito triste e poética. A força da bateria de Grohl é nítida, colocando um pouco de fúria nos versos, com um baixo bem ritmado e firme. Seguindo, “Dumb” tem a primeira e única participação de alguém fora do Nirvana no álbum: Kera Schaley toca violoncelo, colocando um ar etéreo. Curta, rápida e bem Sonic Youth, “Very Ape” é, de longe, a menos comercial do trabalho – guitarra distorcida e vocal gritado. Por isso mesmo, é uma das melhores.
http://youtu.be/n6P0SitRwy8

Cobain mostraria em “Milk It” que já pensava em suicídio e morte. No trecho final da letra forte e pesada, ele canta: Look on the bright side is suicide/Lost eyesight I'm on your side/Angel left wing, right wing, broken wing/Lack of iron, and/or sleeping/Protector of the kennel/Ecto-plasma/Ecto-skeletal/Obituary birthday/Your scent is still here in my place of recovery.

Também com ar pesado e cheio de referências da vida pessoal do guitarrista, “Pennyroyal Tea” é outra balada bem melancólica. Meio acústica, meio elétrica, é linda. Enquanto em “Radio Friendly Unit Shifter” ele se questiona (What’s wrong with me?) e parece dar alguns recados no meio da distorção da guitarra. Penúltima faixa do álbum, “Tourette's”, nome de uma doença neurológica, é rápida e rasteira e lembra grandes momentos do underground punk dos anos 1980.

Útima canção gravada oficialmente por Cobain em estúdio, “All Apologies” é a mais dolorosa que o guitarrista já escreveu em sua vida. Delicada e incrivelmente doce, “All Apologies” é, literalmente, um pedido de desculpas por tudo que ele fez em vida, dando, olhando hoje, um ar de despedida – intencional ou não? Nunca saberemos. A segunda participação do violoncelo deixa tudo ainda mais comovente, e a música encerra com Kurt e Grohl cantando All in all is all we are. Era o fim da grande banda dos anos 1990.

O Nirvana ascendeu ao grande público pela força de suas canções, mas tudo isso também aconteceu graças a Kurt Cobain, referência para muitos jovens naqueles dias. Em suas letras, ele contava histórias que muitos viveram e ainda há, quase 20 anos após sua morte, uma identificação incrível no que ele cantava. Pouco tempo depois do lançamento de In Utero, o Nirvana gravou o Acústico MTV e foi o último registro oficial da banda. Em 8 abril de 1994, Cobain foi encontrado morto com um tiro na boca e altas doses de remédios e heroína em seu corpo. Era o fim.

http://youtu.be/aWmkuH1k7uA

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