sábado, 10 de agosto de 2013

Discos para história: The Freewheelin’ Bob Dylan, de Bob Dylan (1963)

A 11ª edição do Discos para história traz a formação e a resenha de The Freewheelin’ Bob Dylan, de Bob Dylan, segundo LP do então jovem cantor folk que enchia teatros e comovia pessoas com suas letras de tons pessoais e políticos.

História do disco

Bob Dylan nasceu em Duluth, Minnesota, e ele, assim como muitos jovens de sua geração, viu no rock a meta para ter algo melhor – ou era isso, ou virar vendedor em uma loja administrada por um de seus tios. Então o jovem Robert Zimmerman saiu pelo mundo com seu violão debaixo do braço para tentar algo.

Ao atravessar os Estados Unidos, o jovem cantor instalou-se em Nova York, mais precisamente no Greenwich Village, região da cidade habitada, basicamente, por parte da primeira geração do folk americano e o que viria a ser chamada de geração beat. E foi ali que, em meio a algumas invenções de histórias sobre seu passado e de feitos que nunca havia feito que Dylan começou a fazer sucesso e a cantar nas principais casas de shows, e isso rendeu um contrato com a Columbia, importante gravadora. Foi um grande passo na carreira do jovem cantor, já que muitos que estavam ali há anos não tiveram a mesma oportunidade.

Mesmo com certa fama e prestígio entre seus pares, o álbum que levava seu nome vendeu apenas cinco mil cópias no primeiro ano. Mas o grande passo na carreira viria quando Albert Grossman foi escolhido para ser seu empresário – eles romperiam apenas em 1970. A parceria rendeu a primeira viagem de Dylan à Inglaterra, onde era tratado como Deus pelos jovens que lotavam teatros para vê-lo cantar “Highway 51” e “Song to Woody”, por exemplo.


Na gravadora, as coisas não estavam boas para o cantor. Aposta de John Hammond, Dylan não vendeu a quantidade de álbuns esperada, gerando algumas discussões nos corredores e brigas entre diretores da Columbia. Bancado mais uma vez por Hammond, o cantor pegou seu violão e sua gaita mais uma vez e, entre shows e a turnê pelos Estados Unidos, gravou The Freewheelin' Bob Dylan, seu segundo trabalho de estúdio.

Havia mudanças drásticas entre o primeiro LP e a criação e a elaboração do segundo. Se Bob Dylan trazia apenas duas músicas autorais, The Freewheelin' Bob Dylan era todo composto de músicas inéditas. E se as harmonias eram simples dentro do padrão folk, o disco seguinte marcaria o encontro do cantor com seu som – algo conquistado com horas a fio tocando violão em sua casa enquanto escrevia canções.

A principal mudança de Dylan aconteceu na convivência com seus amigos em Nova York. Todos de esquerda e com ideais que formaram o caráter de várias gerações anteriores, ele foi mostrado a um mundo diferente do seu, como tocar para trabalhadores em fazendas no sul dos Estados Unidos; ler muito autores daquela época e de gerações anteriores; e sua namorada, a bela Suze Rotolo, que está eternizada na capa do disco. Ou seja, o processo de composição envolveu muito o crescimento de um rapaz do interior que morava sozinho e que sofria diretamente influências de pessoas mais velhas e com pensamentos, digamos, socialistas. Além, claro, do envolvimento amoroso, entre idas e vindas, com Rotolo, sua namorada mais famosa.

A capa é uma das fotos mais icônicas da história da cultura pop. Então namorando Suze Rotolo, que havia voltado da Itália após fazer um curso de artes, Dylan caminhou de braço dado com a namorada pela esquina da Jones Street e a West 4th Street, em Nova York. É um dos trabalhos fotográficos mais belos em capas de discos já feitos.

Com o trabalho lançado, o cantor participou de vários shows para divulgação, entre eles existe a participação no lendário Newport Folk Festival. The Freewheelin' Bob Dylan fez bastante sucesso, tendo duas vezes mais cópias vendidas do que Bob Dylan teve em um ano. O que também impulsionou as vendas foi o cover que Peter, Paul e Mary fizeram para “Blowin' in the Wind”, que chegou ao número dois das paradas – naquela época, era muito comum as gravadoras cederem músicas para artistas de seu selo. Por fim, o romance, nunca confirmado, entre Joan Baez e o cantor alimentou as fofocas e ajudou a alavancar a carreira de ambos. As letras do disco e tudo que foi citado ajudaram a criar o mito em cima de Bob Dylan, e foi em 1963 que nasceu o maior astro da história do folk.


Resenha de The Freewheelin’ Bob Dylan

O disco já começa com “Blowin' in the Wind”, a letra mais conhecida de Bob Dylan – e que, na última turnê, ele encerrou seu show em São Paulo com essa música. É uma melodia muito bonita e uma letra muito tocante. Além de tudo isso, é de uma simplicidade que ninguém conseguiria transmitir em uma canção. Em uma época em que os negros buscavam seus direitos civis, Dylan conseguiu traduzir isso com maestria.

Sempre colocado em polêmicas sobre plágio, a primeira vez foi justamente em “Blowin' in the Wind”, música que Lorre Wyatt alegou ter sido roubada pelo cantor. Wyatt chegou a cantar a música, mas não antes de Dylan ter escrito a letra e tê-la registrado como sua.

“Girl from the North Country” é a segunda faixa e foi composta durante a viagem do cantor à Londres, quando estava afastado de Suze Rotolo, que fazia um curso de artes na Itália. Dylan chegou ir atrás dela em Perugia, mas Rotolo deixou o país no mesmo dia da chegada do cantor à capital italiana. A canção foi finalizada quando ele retornou aos Estados Unidos e tudo leva a crer que é uma carta de despedida à antiga namorada.

É uma música bem triste, de fato, e ela foi inspirada nas antigas cantigas inglesas. O violão e a gaita mostram bem o momento emocional em que vivia Dylan – entre o sucesso e o dinheiro, mas sem a pessoa que amava.

http://youtu.be/vWwgrjjIMXA

Também inspirada em cantigas inglesas do século dez, “Masters of War” é um pacifista cantando e protestando contra os movimentos que a União Soviética e os Estados Unidos faziam durante a Guerra Fria, que durou até 1991. Para uma capa tão delicada e com um início tão triste e melancólico, ter uma canção desse tom e, principalmente, naquela época não era para qualquer um. Era a mudança de um Bob Dylan mais tímido para alguém contestador das decisões políticas em seu país. Muitos não sabem, mas ele cantou pouco depois do famoso discurso de Martin Luther King Jr., e esse protesto aconteceu pouco mais de um mês depois do lançamento de The Freewheelin' Bob Dylan.

Voltando ao tema amor (ou Suze Rotolo), “Down the Highway” é um blues de poucos acordes. Não há pontes ou complicações entre um verso e outro, apenas algumas notas e o ritmo, até um pouco sombrio, é retomado. Mesmo não sendo um exímio cantor, ainda mais de blues, a faixa ficou muito interessante. Em “Bob Dylan’s Blues” temos uma faixa no melhor estilo Woody Guthrie, grande ídolo e inspirador de Dylan no início de carreira. Carregada de humor e ironia, ela mistura religião e cotidiano dos jornais da época, e ela tem uma levada mais rápida e clássica do estilo folk.

Tendo como inspiração uma antiga balada escocesa, Dylan compôs “A Hard Rain's A-Gonna Fall”. Uns a chamam de “a maior canção de protesto de todos os tempos”, outros não compreendem a profundidade dela. Mas “A Hard Rain's A-Gonna Fall” é uma puta música, isso é fato. Ela é complexa de entender, há jogos de palavras e coisas que, talvez, ninguém nunca vá entender, nem mesmo o compositor. Existe apenas uma coisa que todos concordam: é uma das mais belas canções já escritas por Dylan, e é um excelente encerramento para o lado A do trabalho.

http://youtu.be/IXAdojd1uNs

Abrindo o lado B está “Don't Think Twice, It's All Right”, que também é outra canção de amor e, provavelmente, fala de um dos inúmeros términos entre Dylan e Rotolo. É uma faixa amarga, triste e de puro arrependimento por perder a amada, e o cantor deixa isso bem claro na linguagem e de como trabalha a levada do violão.

Dylan era muito influenciado pelo pessoal do Village e acabava usando várias inspirações para compor. Muito habilidoso e bom para aprender, não demorava muito tempo para tocar uma canção que havia ouvido recentemente. E uma delas inspirou “Bob Dylan’s Dream”, que ninguém sabe ao certo sobre o que fala. Uns dizem que é sobre sua vida em Nova York, outros alegam que ele escreveu sobre a infância. Seja um ou outro, é a primeira vez que ele expõe sua vida pessoal, não seu romance ou sua insatisfação com o governo, nas letras.

“Oxford Town” foi escrita a pedido da revista Broadside para comemorar a entrada de um aluno negro na Universidade de Mississippi. Aqui, mais uma vez, a ironia e o bom humor são as marcas da letra. E esse tipo de composição continua em “Talkin' World War III Blues”, em que ele canta/fala sobre o início e o fim de uma possível nova guerra entre os países e como seria o mundo após isso. Mas, basicamente, tudo não passa de um sonho, e ele ainda coloca uma crítica ao momento do país naquela época no último verso.

http://youtu.be/-ex-m-eEKsg

Faltando três músicas para o encerramento de The Freewheelin’ Bob Dylan, “Corrine, Corrina” é a versão do cantor para “Corrina, Corrina”, de Bo Carter, de 1928. Ao longo dos anos, vários cantores adaptaram a letra ao seu estilo, e Dylan, inspirado pela coleção de discos antigos que havia roubado de um amigo, também fez sua versão da bela canção.

Assim como “Corrine, Corrina”, “Honey, Just Allow Me One More Chance” também é do final dos anos 1920. Aqui, o cantor usou a mesma estrutura, mudou um pouco a linguagem e fez sua versão com um solo de gaita bem interessante entre um verso e outro – de longe, é a mais fraca de todo disco. Por fim, outra releitura que está no álbum é “I Shall Be Free”, inspirada em parte na canção “We Shall Be Free”, de Lead Belly. Aqui não temos uma música no nível do lado A ou das primeiras do lado B, mas encerra de forma leve e descompromissada um álbum pesado e cheio de canções políticas e lamentos amorosos nunca antes vistos.

O sucesso de The Freewheelin’ Bob Dylan transformou Bob Dylan em celebridade. E aproveitando desse sucesso todo, seu nome e sua música foram muito usados em protestos contra o governo e em vários tipos de manifestações pelos Estados Unidos nos anos 1960, transformando o cantor no porta-voz de uma geração – título que ele viria a rejeitar pouco tempo depois. O álbum também foi o primeiro grande sucesso comercial do cantor, que viria a ser um dos maiores de sua geração no futuro.

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