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sexta-feira, 26 de julho de 2013

Discos para história: Let’s Dance, de David Bowie (1983)

Na décima edição do Discos para história, trago o álbum mais dançante de David Bowie: Let’s Dance nasceu da vontade do cantor em mudar o caminho de sua carreira mais uma vez. Para isso, ele não hesitou em pedir ajuda a Nile Rodgers, conhecido guitarrista do Chic, para produzir o trabalho.

História do disco

Os anos 1980 foram um estouro para muitas pessoas, mas 1982 foi um marco e tanto na história da música. Foi nesse ano que Thriller, de Michael Jackson, foi lançado e mudou completamente os rumos da indústria musical para sempre, inaugurando a era dos grandes artistas, das grandes turnês e dos espetáculos cheios de pirotecnia e efeitos diversos.

Com isso, vários artistas, como Rolling Stones e Madonna, começaram a ganhar milhões de dólares em shows e turnês épicas que rodaram o mundo. Mas uma pessoa seguia sem fazer trabalhos inéditos e aparecia apenas em colaborações: David Bowie, que havia lançado Scary Monsters (and Super Creeps) no início da década.

Nascido David Robert Jones, Bowie começou no rock como muitos de sua geração e já tinha um trabalho lançado com seu nome no final dos anos 1960, mas só chamaria atenção com a canção “Space Oddity”, seu primeiro grande sucesso. Completamente inspirado pelo teatro e por Andy Warhol, o cantor criou o personagem andrógeno Ziggy Stardust. E foi aí que tudo aconteceu para que ele virasse um astro.


Bowie foi um dos primeiros a misturar vários tipos de elementos no palco – performance, jogo de luz e a usar o corpo mais do que qualquer um, além do visual, que colaborou para aumentar seu sucesso e suscitava dúvidas sobre sua sexualidade. Junto com o Spiders from Mars, ele lançou The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars e explodiu nas paradas.

Quando tudo corria bem, durante um show, ele deu adeus ao personagem, demitiu a banda sem aviso e saiu de cena. Voltou completamente diferente e flertou com a new wave; gravou a famosa Trilogia de Berlim; ajudou Iggy Pop; voltou aos Estados Unidos; fez mais discos e mais sucesso. Isso não foi suficiente para segurá-lo na RCA, e ele foi disputado a tapa por vários empresários, mas acabou assinando com a EMI.

Em nova casa no início dos anos 1980, o cantor não queria decepcionar os novos parceiros, e buscava inspirações para construir o novo trabalho. Foi uma ida a uma boate em 1982 que conheceu Nile Rodgers e resolveu mudar mais uma vez. E mudar significava mudar mesmo.

A dance music foi um estouro nos anos 1970, tendo o Bee Gees como um dos principais líderes do movimento que nasceu pela vontade de pessoas que não gostavam do rock e que desejavam dançar a noite inteira. Isso também aqueceu o mercado das casas noturnas – muitas bandas de rock não tocavam em locais destinados ao público homossexual. O Chic de Rodgers era uma dessas bandas.

Bowie dispensou Tony Visconti e chamou Nile para produzir o que viria a ser o disco Let’s Dance, deixando o amigo muito chateado – eles só voltariam a trabalhar juntos 20 anos depois, em Heaven. A influência do funk e do soul americano era o principal trunfo de ter um dos grandes nomes da cena por trás do trabalho, que foi inspirado nos melhores momentos de James Brown, Bill Doggett e Earl Bostic, nomes aclamados no R&B.

Apesar de ter todas essas inspirações, parte dos bons momentos saem da guitarra de Stevie Ray Vaughan, convidado pessoalmente pelo cantor a participar das gravações. O guitarrista relutou um pouco no início por não conhecer muito a discografia de Bowie, mas aceitou. E, pela primeira vez, Bowie não tocou nenhum instrumento e se concentrou apenas em produzir e cantar.

O trabalho de produção de Nile Rodgers foi profundo, já que ele tinha todas as referências do que fazer e de como encaminhar o andamento da elaboração de Let’s Dance. E todos mostraram reciprocidade em colaborar com tudo, mostrando nem só de Ziggy Stardust vivia a carreira de alguém que desejava mudar e teve a sorte de encontrar a pessoa certa para isso.

Let’s Dance foi um baita choque nos fãs, que esperavam qualquer coisa, menos um disco de dance. O álbum é o maior sucesso comercial da história de Bowie, superando até os discos clássicos, e vendeu quase 11 milhões de cópias pelo mundo. Ele confessou várias vezes que o LP não foi feito para ser sucesso ou pensado para isso. Não era para ser um clássico, mas virou o último suspiro do ritmo que sacudiu as pistas.


Resenha de Let’s Dance

Inspirada em Little Richard, mas com uma cara absurda de Elton John, “Modern Love” começa com uma guitarra bem groove e segue até entrar o piano, e já dá vontade de tirar o casaco para dançar. E, acreditem, tem um saxofone e um coro nessa canção. Aqui, o trabalho de Nile Rodgers é para ser exaltado e não sei como ele passou tanto tempo sumido das paradas – voltou neste ano na colaboração ao novo disco do Daft Punk.

Coescrita com Iggy Pop, “China Girl” foi gravada em The Idiot, álbum de Iggy feito quando os dois moravam Berlim. Regravada em Let’s Dance, a canção ganhou um groove, um teclado que lembra o oriente e ficou mais estilo Lou Reed – mais falada do que cantada. E, além do coro, ainda tem um solo de guitarra primoroso na parte final.

A faixa título não só mantém o trabalho em um nível muito alto, mas colocou Bowie em outro patamar. Ao gravar essa canção, com grooves, batidas, guitarras e tudo que é necessário para um bom funk, ele mostrou que é muito mais que o Camaleão do Rock, como gostam de chamar. Ele conseguiu, em 15 anos de carreira até então, fazer de tudo um pouco e com uma qualidade absurda. Por aí, música tem pouco mais de quatro minutos, enquanto tem quase oito no LP.

http://youtu.be/E_8IXx4tsus

Em “Whitout You” temos a primeira balada melancólica. Mesmo sendo simples e efetiva, ela baixou um pouco a qualidade do disco, que vinha de três músicas espetaculares, no encerramento do lado A. Calma, tudo volta ao normal com o épico “Ricochet”, que flerta com ritmos africanos e tem efeitos e vozes, e uma virada drástica no refrão, algo inovador na carreira de Bowie, abrindo o lado B. “Criminal World” é, de longe, a canção mais pop do trabalho. A presença do baixo é bem interessante ao ditar o ritmo, assim como o poderoso solo pouco antes da metade da música. A voz é muito suave, quase um sussurro.

Prosseguindo, “Cat People (Putting Out Fire)” é uma regravação do próprio Bowie, lançada um ano antes, que apareceu no álbum. Apenas três pessoas foram necessárias para regravá-la: o próprio cantor, Giorgio Moroder (outro que o Daft Punk ressuscitou) e Steve Ray Vaughan – estava aí uma excelente mistura entre rock e eletrônico. Eles gostariam de ter usado a versão original, mas a MCA, então gravadora de Moroder, não autorizou, por isso ela foi refeita. Para finalizar, “Shake It” tem um coro estilo ABBA e é uma canção totalmente disco music, sem tirar nada.

Let’s Dance dividiu opiniões em seu lançamento. Hoje, 30 anos depois, o álbum virou um dos principais trabalhos da carreira de David Bowie, que mostrou ao mundo que mudar é possível, basta encontrar as pessoas certas. Ele também mostrou que nunca seria um artista de um ritmo só e, nos anos 1990, surpreendeu novamente ao ser o primeiro de sua geração ao flertar com o eletrônico. Se tem alguém que pode falar que fez e cantou de tudo, esse alguém é Bowie.

http://youtu.be/N4d7Wp9kKjA

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