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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Resenha: Emicida – O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui


Talvez Emicida seja o grande nome da música brasileira hoje em dia. Ainda no meio termo entre o underground e o popular, o rapper acumula uma incrível base de fãs que conheceram a música do cantor pela internet – grande meio de engajamento, verdadeiro ou não, nos dias atuais. Ele é uma febre não só entre os comuns, mas também entre jornalistas e famosos que compraram a ideia do discurso.

Foi um pulo dos singles até os EPs, aumentando ainda mais a popularidade e a curiosidade em torno do cantor. O disco de estreia era, sem dúvida alguma, um dos lançamentos mais aguardados deste ano. Então saiu O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui, primeiro trabalho completo e recheado de participações especiais – desde novos nomes até velhos conhecidos.

“Milionário do Sonho” é o poema da atriz Elisa Lucinda, que divide a voz com Emicida em uma espécie de apresentação do disco e, por que não, da vida do rapper, e logo começa “Levanta e Anda”, canção biografia que fala da infância difícil do MC.

Enquanto “Nóiz” traz uma letra e uma batida bem interessante. Na parte final, temos a continuação do poema já citado. A quarta faixa é “Zoião” que também dialoga com o pessoal de qualquer comunidade carente no Brasil, pois trata de um assunto bem conhecido. Aliás, o refrão dessa canção casou muito bem com a batida mais densa.

Então vem a melhor música: “Crisântemo” tem um pouco de rap, um pouco de samba bem paulistano e emociona principalmente pelo depoimento de Dona Jacira, mãe de Emicida, relatando parte da letra falando da morte do marido. Talvez o rapper não consiga fazer uma faixa tão marcante e tão boa como essa.

Com participações de Tulipa Ruiz e Estela, filha do cantor, “Sol de Giz de Cera” é muito MPB de baile. Tulipa não acrescenta muito e parece estar ali por estar, e é uma grande decepção ver uma das grandes vozes da atual geração nacional simplesmente jogada na canção. Outra cantora que também participa de O Glorioso Retorno... é Pitty em “Hoje cedo”, faixa que mistura elementos da música de massa ao rap. Tem bons momentos, mas capenga em outras partes.

A polêmica “Trepadeira” é o que Marcelo D2 faz desde o início dos anos 2000: mistura rock com samba. Wilson das Neves está muito bem acompanhando uma melodia interessante e com potencial para ser grande canção, mas com uma letra bem rasa. Seguindo, “Bang!” é tão cheia de referências, desde o desenho Ben 10 até Eike Batista, que é impossível não ficar perdido. Outra letra desperdiçada.

MC Guime dá o tom em “Gueto”, um rap ostentação ao contrário – ostenta ser do gueto e ser “mano”, e diz que sempre vai ser gueto. Em “Hino Vira-Lata” temos um samba-rap de amor, canção em que tudo funciona e melhora um pouco a qualidade da parte final do trabalho. Depois disso tudo, vem um quase pop romântico “Alma Gêmea” – causaria histeria e indignação se Paulo Ricardo ousasse em cantá-la. Brega e ruim que dói.

Pesada, “Samba do Fim do Mundo” trata de forma abrangente assuntos do mundo, e Emicida solta um verso já usado por ele antes (reforma agrária da música brasileira). Finalizando, “Ubuntu Fristaili” é cheia de convidados cantando um bonito refrão de uma faixa apenas razoável.

O início de O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui é muito bom. O problema está no meio do disco, que é bem abaixo no geral, com participações sem muito sentido e letras fracas e rasas. O final melhora um pouco, mas, como um todo, o primeiro disco oficial de Emicida é bem mediano e irregular. A poesia é muito bonita, porém ela quebra muito o andamento das faixas. Outra coisa que incomoda é esse discurso versos sucesso apresentado em alguns momentos. Seria bem interessante o rapper decidir de uma vez se deseja o mainstream e suas consequências ou se prefere seguir no underground. Esse meio termo atrapalha, e muito, qualquer tipo de pretensão de um letrista incrível, mas que ainda tropeça no caminho que deseja seguir.

Tracklist:

1 – “Milionário do Sonho”
2 – “Levanta e Anda”
3 – “Nóiz”
4 – “Zóião”
5 – “Crisântemo”
6 – “Sol de Giz de Cera”
7 – “Hoje Cedo”
8 – “Trepadeira”
9 – “Bang!”
10 – “Gueto”
11 – “Hino Vira Lata”
12 – “Alma Gêmea”
13 – “Samba do Fim do Mundo”
14 – “Ubuntu Fristaili”