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sábado, 10 de setembro de 2016

Festival: In-Edit Brasil 2016


São 57 documentários exibidos em onze dias de evento

Começou o festival de documentários mais legal do mundo, o In-Edit. A edição brasileira traz 57 longas dos mais diversos tipos e uma variedade incrível de cinemas para assisti-los. A cobertura deste ano começou ontem, com dois filmes. Como sempre, sem prometer números, verei quantos eu conseguir ao longo do evento.

O In-Edit Brasil terá a exibição de documentários musicais dos dias 8 a 18 de setembro em diversos pontos da cidade. Clique aqui e veja a programação, aqui para ouvir a playlist montada pela organização e aqui para ver como foi a cobertura no ano passado.

Leia as críticas:


Orion, The Man Who Would Be King (2015)

Direção: Jeanie Finlay. Duração: 86 min. Elenco: Jimmy Ellis, Jerry Adams, Sharon Attaway Nettleton, Gail Brewer-Giorgio. País: Reino Unido.

Jimmy Ellis nasceu com a maior benção que um homem poderia ter e a maior maldição de sua vida: ter a voz muito semelhante a de Elvis Presley (1935 – 1977). Sabendo de todo talento que possui, ele começa a correr atrás de uma carreira. Mais do isso, faz de tudo para ter uma, ser famoso e ter reconhecimento de como era bom cantor. Mas ter a voz parecida com o Rei do Rock atrapalha seus planos.

A coisa muda completamente quando o novo dono da Sun Records, Shelby Singleton, entra na jogada. Partindo de uma história fictícia, a de Orion – um cantor que forja a própria morte –, eles constroem toda uma mentira para que o público fã de Elvis compre a história. Ou, pelo menos, comprem os discos de Orion para matar a saudade. Isso tudo aconteceu no auge das teorias conspiratórias sobre Presley estar vivo e de a morte não passar de uma imensa farsa.

É interessante como a diretora Jeanie Finlay constrói a história de Ellis de forma cronológica e consegue ir mostrando como ele, apesar de não gostar de Orion e de usar uma máscara o tempo inteiro, também se aproveitou bastante da fama ao conseguir tocar para milhares de pessoas e terminar com uma mulher diferente toda noite. Ela também mostra como a indústria musical pode ser cruel, mesquinha, gananciosa e apenas desejar o próximo sucesso.

Em uma noite, Ellis tira a máscara e mata Orion e sua carreira. Depois disso, ele nunca mais conseguiu um bom contrato ou tocar em um grande lugar e passou a apenas sobreviver, fazendo qualquer coisa pedida pelos contratantes. Jimmy Ellis voltou para casa dos pais e acabou sendo assassinado em 12 de dezembro de 1998, durante o turno da manhã de sua loja de penhores, virando uma nota no rodapé da história da musica popular dos Estados Unidos.




The Jam, About The Young Idea (2015)

Direção: Bob Smeaton. Duração: 90 min. Elenco: Paul Weller, Bruce Foxton, Rick Buckler, Martin Freeman. País: Reino Unido.

Talvez o mundo não saiba, mas The Jam foi uma das bandas mais importantes do Reino Unido entre o fim dos anos 1970 e 1980. Nem punk o suficiente para fazer parte da efervescente cena que mudou a ilha em um curto período de tempo, nem new wave o suficiente para ser comparado a nomes como Duran Duran, Talking Heads e outros, o guitarrista e vocalista Paul Weller, o vocalista e baixista Bruce Foxton e o baterista Rick Buckler foram eles mesmos. E isso bastou.

Bob Smeaton não se limita apenas a pegar os ex-membros da banda para contar a história, mas pega alguns dos fãs mais importantes, como o ator Martin Freeman (Dr. John Watson em Sherlock, Bilbo Baggins nos filmes d'O Hobbit), para explicar a influência do grupo naquela geração de jovens – hoje, pessoas importantes e influentes em suas respectivas profissões. Mas, muito mais do que isso, ele coloca a paixão pelo The Jam como centro da história.

Sabe um segredo que determinado grupo de pessoas têm e não conta para ninguém? O trio inglês era isso. E mais. Para eles, era uma imensa família em que todos se conheciam, trocavam ideias e se conheciam. Para uma pequena parcela da juventude inglesa dos anos 1970 e 1980, as canções do The Jam eram a inspiração para seguir em frente durante os tempos de dureza do governo liderado por Margaret Thatcher (1925 – 2013).

Quando o fim das atividades foi anunciado, o choque foi imenso para todos, incluindo Bruce Foxton e Rick Buckler. A decisão unilateral de Paul Weller em buscar novos rumos musicais foi o estopim para o fim, que, ainda que deixado nas entrelinhas, magoou, e ainda magoa, muito Foxton e Buckler. Por isso, quando perguntados se existe a chance de o The Jam voltar, a resposta é clara: "Absolutamente não, porra". E é justo.

A música deles é retrato de um tempo da história e deve ficar lá. The Jam tem uma história muito bonita, contada muito bem nesse documentário, e deve continuar assim. Escrever novas linhas em um livro terminado é um erro.




Fonko (2016)

Direção: Lamin Daniel Jadama, Lars Lovén e Göran Hugo Olsson. Duração: 87 min. Elenco: Nneka Egbuna, Sister Fa, Neo Muyanga, Fela Kuti. Países: Suécia, Suíça e Alemanha.

A nova geração na África está redescobrindo a identidade do continente. Como ferramenta de divulgação, a música é usada para trazer os jovens para um novo mundo e fincar raízes em casa. Fonko pega alguns países do continente e faz um recorde muito bom desse movimento que vem acontecendo nos últimos 20 anos.

Da Costa do Marfim até a África do Sul, estilos diferentes vêm fazendo a cabeça dos jovens – seja apenas para dançar, seja para manifestações por melhorias. Dentre os seis países escolhidos, três chamam a atenção. O primeiro deles é Angola e o kuduro, que no Brasil virou uma música horrível. Lá, é um gênero musical que ganhou o país ao longo do tempo ao sair da marginalidade e ganhar ares populares – muito parecido com o funk carioca, em certos aspectos culturais.

Então, vêm as diferenças colossais entre países do mesmo continente. Na África do Sul, ainda luta-se para curar as feridas de anos do apartheid, apesar de ser o país mais rico da região e gozar de prestígio internacional. O ar de divisão fica claro nos depoimentos de cantores e apresentadores, que buscam união para seguir em frente.

Ainda que haja divisão, a situação da África do Sul ainda é muito boa se comparada a de Burkina Faso, que viveu uma ditadura comandada por Blaise Compaoré entre 1987 e 2014 – ele tomou o poder ao, segundo os músicos locais, matar o antigo e admirado presidente Thomas Sankara (1949 – 1987). E a música aqui não é apenas uma manifestação cultural, mas algo político e cheio de força nas letras.

Fonko mostra que, apesar das feridas de anos de exploração e colonização, a nova geração de africanos busca união para trazer ao mainstream as antigas tradições, ainda que reembaladas para o século 21. Tudo isso embalado por nomes como Fela Kuti (1938 – 1997), narrador de alguns trechos. A força do longa não está só na música, mas na visão desses novos músicos, DJs e cantoras sobre a nova África que eles desejam para o futuro.




Leonard Cohen: Bird on a Wire (1974)

Direção: Tony Palmer. Duração: 90 min. Elenco: Leonard Cohen, Ron Cornelius, Bob Johnston. País: Reino Unido.

O Tony Palmer acompanhou Leonard Cohen e sua banda em uma turnê por 20 cidades pela Europa em 1972. Na edição, o empresário de Cohen não gostou de algumas coisas, comprou os rolos de Palmer e iria reeditar. Só que o material sumiu e ficou perdido ao longo dos anos. Só em 2008, quando procurava outro material perdido em Los Angeles, o diretor foi avisado sobre quase 300 caixas de rolos de fita, enviados quase imediatamente para Londres. Dias depois, descobriu que a trilha do longa estava lá. Abrindo cuidadosamente os rolos, encontrou boa parte das filmagens ainda intactas. Bingo.

O mérito de Palmer não está nas gravações de tudo que acontecia (dos bastidores aos shows), feitas do jeito que dava, mas na montagem. Porque ele conseguiu dar sentido e passar ao público um Cohen desnudado, insatisfeito, feliz, triste, galanteador e, acima de tudo, um poeta do mais alto nível.

Os problemas da turnê são mesclados com momentos de pura alegria, complementados com musicais dos maiores sucessos da carreira dele até os dias atuais. Um exigente Cohen pedindo silêncio é tão importante quanto o Cohen que fazia piada e criava canções improvisadas por puro entretenimento. Aliás, as interpretações das canções ganharam um novo sentido após ver o documentário.

Mas, entre todos os momentos, o final é o mais surpreendente de todos. Porque mostra um cantor inseguro, mas, ao contornar a situação, todo seu talento é posto ao olhos de quem viu aquilo ao vivo e de quem teve a chance de ver na tela grande, mais de 40 anos depois de sua gravação. Palmer conseguiu transmitir isso com muita clareza e sensibilidade. Um dos longas mais bonitos e tocantes sobre um talento da poesia e da música.




Mavis! (2015)

Direção: Jessica Edwards. Duração: 81 min. Elenco: Mavis Stapes, Jeff Tweedy, Bob Dylan, Bonnie Raitt. País: Estados Unidos.

Cantora desde os nove anos, Mavis Stapes fez parte de um dos melhores grupos vocais da história americana: os Staples Singers. Deixada de lado com a chegada da disco music, a cantora foi redescoberta a partir do momento em que Jeff Tweedy, vocalista do Wilco, a procurou para produzir seus discos.

O longa opta pela forma mais simples possível para retratar alguém em um documentário envolvendo uma personagem tão rica da história da música: depoimentos de fãs, amigos de profissão e especialistas são mesclados com imagens de arquivo e momentos atuais de Mavis no palco, mostrando força e vitalidade aos 75 anos para cantar sucessos antigos e atuais.

Segregação e racismo são mostrados com firmeza, não escondendo os problemas passados pelo grupo. O longa também é claro em mostrar como a cantora é grata ao pai Roebuck "Pops" Staples pelas lições dentro e fora do palco. Poucos sabiam, mas Martin Luther King Jr. teve papel fundamental na guinada musical dada pelo grupo no meio dos anos 1960, quando as letras de protesto começaram a aparecer mais. E Bob Dylan, fã da banda, também foi catalizador desse movimento ao ceder "Blowin' in the Wind" ao grupo – o verso How many roads must a man walk down/ Before you can call him a man? chamou a atenção de Pops logo de cara. Mas o sucesso só viria mesmo quando eles foram para uma linha soul e R&B. Quase 20 anos depois da estreia, o sucesso e reconhecimento vieram.

O momento mais emocionante do documentário - de arrancar lágrimas mesmo – foi o encontro entre Mavis e Levon Helm (1940 – 2012), ex-membro da The Band. Para quem não se lembra ou não sabe, os Stapes Singers participam do último ato de The Last Waltz, documentário de despedida da banda. Fãs do grupo, eles não tiveram dúvidas em convidá-los para cantar "The Weight", versão que virou um grande clássico. Uma jam para ninguém coloca defeito.

Simples e bonito, Mavis! não tem excessos e consegue fazer um recorte preciso de como as coisas mudaram nos Estados Unidos ao longo dos anos. Gospel, soul, R&B, não importa muito o gênero, Mavis Stapes está aí pela música, não pelo dinheiro e fama. "Não vou parar, ainda tenho muita coisa para dizer", disse ela. Depois de anos sem aparecer no mainstream, ela está com tudo – inclusive, lançando discos de inéditas. Mavis merece ser reverenciada como uma das melhores cantoras que nós tivemos a chance de ouvir.




The Beatles and World War II (2016) 

Direção: Tony Palmer. Duração: 93 min. País: Reino Unido. 

Os anos 1970 produziram muita coisa maluca em vários momentos da cultura pop da época. Pegar as músicas dos Beatles e colocá-las para narrar a Segunda Guerra de maneira cronológica foi uma delas. Originalmente, a ideia foi de Susan Winslow, mas a 20th Century Fox achou o resultado terrível e pediu até os negativos para queimá-los.

Anos depois, o diretor Tony Palmer achou a trilha sonora desse longa, com as presenças de Tina Turner, Bee Gees, Rod Stewart, Elton John, Jeff Lyne e outros nomes pesados cantando as canções do Fab Four. Disso veio a ideia de lançar oficialmente esse filme, mas com algumas modificações na edição e na escolha das imagens. Pronto, nasceu o documentário The Beatles and World War II.

A ideia é boa, ainda mais quando mostra momentos históricos de um dos momentos mais tristes do século 20 – ainda há a presença de algumas imagens de filmes produzidos por Hollywood com a mesma temática. Porém é um longa muito cansativo por usar a mesma premissa sempre (entra a música, um conjunto de imagens, um discurso de alguém importante, um trecho de um filme, mais imagens e começa outra música). Com 40 minutos, é possível ter uma ideia do final – os campos de concentração em Auschwitz.

Se a intenção era colocar o público para refletir, Palmer consegue isso com bastante tranquilidade. E ss convidados ficaram bem confortáveis em gravar versões interessantes de clássicos como "Get Back", "Golden Slumbers/Carry That Weight" e "Lucy in the Sky with Diamonds", dando uma nova cara para essas faixas. Difícil será manter a atenção do público ao que acontece na tela, porque não é um filme de fácil digestão e é bastante cansativo assisti-lo até o final.

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