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terça-feira, 10 de maio de 2016

Livro: A Garota da Banda, de Kim Gordon


Fundadora do Sonic Youth desnuda vida e carreira em autobiografia 

Autobiografias de músicos são a chance ideal de conhecer melhor aquela pessoa que você admira ou que, de alguma forma, toca seu coração quando ouve uma música ou um disco. A Garota da Banda (ed. Fábrica 231, 288 págs, R$ 25 em média) é muito mais do que isso ao ser o desabafo de Kim Gordon sobre sua vida de estrela do rock que vê sua banda e seu casamento acabarem depois de 30 anos.

Ao começar pelo último show, no finado festival SWU, em Paulínia, em 2011, Gordon traz o que será o mote das quase 300 páginas: um desabafo sincero e melancólico sobre o que viveu até ali. O encerramento das atividades do grupo aconteceu depois de ela descobrir que Thurston Moore a estava traindo há algum tempo. Como não ficar abalada? Como recomeçar perto dos 50 anos? Como proteger a filha? São questões levantadas e abordadas em diversos momentos.

Mas a principal delas é: como Kim Gordon se protegeu? Ao contar sua história, ela levanta detalhes que só seriam ditos a um terapeuta após anos de consultas e revisões em momentos fundamentais do passado para entender a si mesma no presente. Um exemplo disso é o fato de tentar proteger o irmão mesmo sabendo que ele não era uma pessoa boa durante a adolescência e parte da vida adulta – depois descobriu-se que ele era esquizofrênico.

Discos para história: Dirty, do Sonic Youth (1992)
Lendas da música: Kim Gordon
Assista apresentação do Sonic Youth de 1987

É doloroso ler certos trechos ou histórias. Gordon tem muita mágoa acumulada ao longo dos anos. Como todos nós, meros mortais, ela guardou para si tudo que sentia e deveria ter falado. Enfim, ela falou. Dos problemas com os pais, com as mudanças que fez ao longo da vida, como foi vivenciar a Califórnia dos anos 1960, como foi a chance de ter a música como uma forma de expressão além da pintura, como ela encontrou o amor de sua vida em um dos muitos eventos de música alternativa que aconteciam na Nova York dos anos 1980, como a vida de ser a garota da banda não tem glamour algum – ainda mais com filha pequena, inúmeros projetos dos mais variados tipos –, como a morte de Kurt Cobain ainda a afeta depois de mais de 20 anos e como tudo desmoronou por conta de um caso extraconjungal.

Ela optou pelo tipo mais simples possível de autobiografia ao contar a história na ordem cronológica dos acontecimentos, com reflexões e explicações durante as passagens. Há espaço para ela falar das músicas que mais gostou de ter gravado, assim como explica todos os detalhes do fim do relacionamento com Moore. Há desabafos, pedidos de desculpas, momento de "deveria ter feito isso, não aquilo". Uma vida como a nossa: de momentos ótimos e inesquecíveis, e de momentos péssimos igualmente inesquecíveis.

A Garota da Banda é uma obra de arte em forma de leitura, e o coração fica pequeno em muitas partes. Às vezes queria sair de onde estava para dar um abraço em Kim Gordon, porque certas coisas que ela conta doem – parece que alguém muito próximo está sofrendo. No fim, Gordon encara o fim de uma história como a chance de escrever uma nova. Serve para ela, serve para todos nós.





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