sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Discos para história: Dookie, do Green Day (1994)


A 37ª edição da seção fala sobre Dookie, terceiro disco de estúdio do Green Day. Depois desse trabalho incrível, a banda formada por Billie Joe Armstrong, Mike Dirnt e Tré Cool não seria mais a mesma.

História do disco

Embalado pelo sucesso de Kerplunk, o Green Day saiu pela América para fazer shows e conseguiu aumentar ainda mais seu público. Por esses dois fatores, várias gravadoras grandes ofereceram contratos ao grupo, mas nenhuma impressionou de cara. A única proposta que realmente agradou foi a da Reprise, que mandou o produtor Rob Cavallo atuar como intermediário.

Conhecido pelos principais nomes do underground punk, ele havia trabalhado com os Muffs, grupo que o Green Day admirava muito. Conhecendo o potencial dele, não foi difícil sair amigavelmente da antiga gravadora e acertar com uma major, sonho de nove entre dez bandas iniciantes. Mas isso causou enorme problema ao grupo, pois fãs revoltados com a mudança renegaram o trabalho feito até aquele momento.

As primeiras demos foram entregues a Cavallo logo após a assinatura do contrato, deixando ele bastante impressionado com o que ouviu. Foi nesse momento que ele vislumbrou que um grande álbum estava nascendo ali. O curto período de gravação, entre setembro e outubro, foi sucedido por uma nova turnê – oportunidade para divulgar as novas músicas e acostumar os fãs.


Pouco antes da segunda mixagem, o álbum ainda não tinha nome. Então foi decidido que seria "liquid dookie", uma homenagem aos tempos em que Billie Joe Armstrong, Mike Dirnt e Tré Cool comiam alimentos estragados na turnê e tinham diarreia. Como a Reprise achou muito ofensivo o nome, eles optaram por chamá-lo apenas de Dookie, mantendo parte do plano anterior.

Quatro meses depois das gravações, o disco foi lançado no dia 1º de fevereiro de 1994, com “Longview” sendo lançado como primeiro single. O legal desse álbum em particular é que foi pouco mexido ou alterado com relação às demos. Ou seja, é um trabalho caseiro com orçamento maior. E, como bem sabemos, orçamento maior gera produção melhor na maioria dos casos. A capa é uma bela ilustração de Richie Butcher que mostra a East Bay cheia de celebridades e momentos do rock.

Logo que foi lançado, Dookie chegou ao número dois no top-200 da Billboard e atingiu o primeiro lugar em sete países. Um ano depois, ele ganharia o prêmio de Melhor Álbum Alternativo de Rock no Grammy; em 2013 ele chegou as 20 milhões de cópias vendidas, sendo o grande sucesso do Green Day, ultrapassando as barreiras do tempo e da idade de seus integrantes.



Resenha de Dookie

Dookie começa com uma das melhores músicas possíveis para um início de disco: "Burnout" é punk, agitada e suficiente para prender atenção do ouvinte de cara, algo fundamental para gerar interesse. A potente "Having a Blast" mostra que a guitarra de Billie Joe Armstrong e o baixo de Mike Dirnt nasceram para trabalhar na mesma banda. Que dupla.

Igualmente recheada de guitarra e bateria, “Chump” começa com I don't know you/ But, I think I hate you/ You're the reason for my misery/ Strange how you've become/ my biggest enemy/ And I've never even seen/ your face, mostrando toda face adolescente do grupo. A faixa ainda tem um momento solo de Dirnt, dando a entender que, ao vivo, ela funcionaria muito bem. Depois vem a poética “Longview”, que trata de sexo, maconha e masturbação de forma indireta. De longe é que mais mostra a habilidade e sintonia do trio.



Quando um álbum é bom, é quase inevitável que seja recheado de hits. E, no caso de Dookie, emendar “Longview” com a regravação de “Welcome to Paradise” (ela está em Kerplunk) foi um grande acerto de Rob Cavallo e da banda. Ela mostra como a base das canções é quase sempre o baixo, dando o tom e todo ritmo para que a bateria e a guitarra possam brilhar em seus momentos. Além disso, a letra é sensacional. A romântica “Pulling Teeth” mostra que os Ramones estavam certos: as letras amorosas nunca sairão de moda no punk.

De longe, “Basket Case” é o maior sucesso da história do Green Day. E não é difícil saber o motivo. O andamento da guitarra aliado com a voz de Armstrong convida qualquer moleque de 12, 13 anos a ter seu próprio instrumento, então a música cresce e entra o vocalista de novo, desta vez em um riff marcante. Daí por diante, ela vira o típico hit: fácil de acompanhar, cantar e pular. Outro sucesso de Dookie é “She”, uma balada romântica à punk sobre a ex-namorada de Armstrong – ela foi alvo de outras três canções em mais dois discos da banda. Ela tem uma força absurda, principalmente na letra. Depois vem “Sassafras Roots”, que usa a palavra waste (desperdiçar) como base.



Se “Basket Case” e “She” ultrapassaram as barreiras do tempo, o mesmo aconteceu com “When I Come Around”, o single de maior sucesso do Green Day nas rádios americanas até "Boulevard of Broken Dreams", de 2004. Ela é outra sobre rompimento e pedir outra chance no relacionamento. Em “Coming Clean”, o Green Day mostra que pode condensar sentimentos em uma faixa de menos de dois minutos, o mesmo acontece em “Emenius Sleepus”, a única letra escrita por Mike Dirnt. Acabando as canções com menos de dois minutos, temos “In The End”. Não, não deve ser coincidência. “F.O.D (Fuck Off and Die)” e “All By Myself”, cantada por Tré Cool”, encerram com maestria a obra-prima do Green Day.

20 anos depois de seu grande sucesso, o Green Day segue fazendo música por aí. E as canções que preenchem Dookie seguem tão atuais como nunca para qualquer pessoa que tenha entre 11 e 17 anos e que busca afirmação ou perdeu sua primeira paixão. Para quem já tem mais de 20, 30 anos, é um bom disco para reavivar momentos de um passado cada vez mais distante.