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terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Livro: Rita Lee – Uma Autobiografia (2016)


Cantora lançou uma das biografias mais esperadas dos últimos anos

A autobiografia da cantora Rita Lee, 69, foi um dos livros mais esperados de 2016. Alguém que esteve nos Mutantes, participou de alguns dos momentos mais importantes da música brasileira, testemunha de outros tantos e um sucesso estrondoso entre o meio dos anos 1970 e fim dos anos 1980. Então, um livro sobre essa carreira espetacular merecia atenção de quem gosta e estuda a história da música brasileira. Não é todo dia que alguém deste tamanho está disposto a abrir a própria vida.

Quem esperava muita música pode ficar desapontado, quem não esperava muitas revelações ficará surpreso. Ao final das quase 300 páginas, a conclusão em que cheguei foi que não é um livro sobre a música de Rita Lee, mas um livro sobre Rita Lee Jones, a pessoa física, aquela que ama animais, ama os filhos, o marido e a família. A música?. Depois deles todos. E ela deixa isso muito claro na autobiografia (294 págs, Globo Livros, R$ 45 em média).

Muito diferente de algumas autobiografias, a (ex) cantora tem um distanciamento sobre própria obra. Por não ouvi-la há muito tempo, ela se mostra bastante confortável para falar bem ou mal de determinado disco. E se ela já colocava uma pá de terra em qualquer reunião com os Mutantes, esse livro é a lápide para sacramentar o enterro de qualquer chance de um retorno. Rita Lee passa a impressão de não gostar do período em que esteve na banda. Acabou sendo expulsa por Arnaldo Baptista "por não ter calibre musical" – aliás, os irmãos Baptista, incluindo Sérgio, são achincalhados por ela bem mais de uma vez ao longo dos curtos capítulos em que foi montado o livro. Há uma mistura de mágoa guardada, vontade de vingança e uma pitadinha de fofoca. Uma pena que esse pedaço do livro só sirva para isso mesmo, o que não deixa de ser ruim do ponto de vista musical. Caso ela tivesse feito o que fez com os próprios discos, seria algo mais interessante do que ler quase uma disputa de uma Zorra contra os Sargentos Baptista.

Veja também:
Discos para história: Rita Lee (Lança Perfume), de Rita Lee (1980)
Discos para história: Tropicália ou Panis et Circencis (1968)
Discos para história: Saúde, de Rita Lee (1981)


Rita não foge da raia ao contar a vida "porra louca" que levou por uns bons 30 anos. Muitas drogas, álcool e a prisão no período da ditadura militar (1964-1985) deram o ar necessário – nem sempre algo bom – de estrela do rock a ela, que engatou sucesso atrás de sucesso quando emplacou uma parceria, dentro e fora da música, com Roberto de Carvalho. Se antes ela era enganada e tratada como um objeto, agarrou a chance do voo solo para nunca mais largar. Discos de sucesso, pontas em filmes, programas especiais e um público fiel – a crítica, essa persona que a cantora detesta, não muito. Porém sempre havia uma recaída, um problema, alguma coisa para tirar o foco. Internações para desintoxicação foram uma constante ao longo da vida. Essas coisas são fundamentais para entender o quanto a pessoa física se colocou à frente da jurídica.

Se não vale muito para saber da Tropicália ou como os Mutantes foram fundamentais na música brasileira, a autobiografia de Rita Lee serve para conhecer um pouco mais da cantora em sua carreira solo e fora dos palcos. Como Roberto de Carvalho entrou e foi fundamental para os grandes sucessos – nos arranjos e/ou fonte inspiradora –, como ela foi o "menino" em uma casa cheia de mulheres, como era deliciosa a São Paulo dos anos 1950 e 1960, como a família foi fundamental para Rita Lee ser Rita Lee. Por isso, o livro acaba ficando no meio do caminho. Nem algo extremamente revelador, nem algo para se jogar fora.

Ela pode achar que já contribuiu o suficiente na música, mas sabemos que não é verdade. Sempre haverá espaço para Rita Lee na música brasileira. Seus discos, do Tropicália ou Panis et Circencis até Reza, são fundamentais para compreender a música brasileira. E o livro é, para o bem ou para o mal, fundamental para entender Rita Lee.



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