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segunda-feira, 27 de julho de 2015

Pitchfork, Arctic Monkeys e Brasil


Na última semana, o site da revista Pitchfork, a Bíblia indie para muitos, soltou um texto explicando o sucesso do Arctic Monkeys no Brasil. A parte umas bobagens que envolvem Elvis, James Dean e Mick Jagger e uma espécie de culto a uma figura rebelde, é um relato bem interessante sobre como os sul-americanos, em especial os brasileiros, costumam cultuar as coisas de fora, a adoração aos artistas estrangeiros e altos custos de turnês por aqui.

Sobre a parte do crescimento dos serviços de streaming por aqui, isso pode ser colocado na conta dos avanços do Brasil nos últimos anos. Mesmo com o atual momento, as pessoas tiveram mais acessos a coisas que não tinham antes, então é natural que a tendência seja de crescimento até acontecer certa estabilidade – isso também mostra que o desejo é de acompanhar certos artistas, séries e coisas produzidas lá fora, vide o sucesso da Netflix.

Também não é mentira que os fãs daqui são quase sempre mais animados que os de qualquer outro lugar do mundo. Se colocarmos em conta que muita gente demora a vir, exceto Franz Ferdinand, Paul McCartney, Peter Murphy e Paul Di'Anno, penso que é perfeitamente normal os níveis de histeria do pessoal.

Então, entramos na parte mais assustadora do texto, ainda que seja uma verdade incontestável: os problemas da se fazer shows por essas bandas. O agente de Peter Murphy, Joady Harper, falou sobre isso. “Todo mundo tem algum conto de terror sobre a América do Sul. Isso ainda não aconteceu a nós porque eu tenho alguém por lá que conhece as leis de lá. Isso me ajuda a eliminar muitos problemas. Eu também insisto em pagamento total logo de cara, uma semana antes de qualquer show. Em outro caso não tem show.”

É ruim ler esse tipo de coisa porque ainda há uma espécie de ranho e descrença ao acerto de pagamento. Esse tipo de exigência só mostra o ainda precário funcionamento de certas agências e negociadores, que curtem cobrar preços exorbitantes nos ingressos. Em 2015, nesse mundo globalizado de hoje (sim, um chavão para dar aquela arrematada), ainda é necessário pedir coisas antecipadas para não haver problemas depois dos shows, principalmente pelo fato de o dólar ser uma moeda que muda de cotação todos os dias.

O texto tenta colocar uma pecha que vejo encaixada no Brasil, como gostar de um personagem no palco, o que, sinceramente, nunca percebi. O grande problema é que por aqui existe uma tendência enorme em transformar um show em um espetáculo a parte e cheio de coisas desnecessárias (para usar uma palavra da moda, está tudo virando gourmet), uma tendência enorme em gostar de muita coisa ruim por simplesmente ser de fora, só ver as mesmas coisas todos os anos e superestimar bandas comuns ao ponto de se pagar absurdos para vê-los só pela “experiência”.

Não penso que o sucesso do Arctic Monkeys, para falar da banda tema-central do texto, seja pelos motivos citados – eles já faziam sucesso muito antes disso, principalmente nos dois primeiros álbuns, quando eles vieram ao finado Tim Festival. No caso deles, coloco na conta que a geração mudou, e eles conseguem se conectar com os fãs através de sua música – esse tipo de relação acontece desde quando a música é música.

A América do Sul, incluindo o Brasil, ainda é muito nova no mercado internacional de shows e festivais e ser um lugar atraente demanda muitas coisas, mas é bom ver que muita gente está olhando diferente para essas bandas, em que podemos ver uma melhora significativa nos últimos anos. Só lamento os preços altos e o enfraquecimento da economia, piorando um pouco a temporada e inflando preços. Ainda que o Lollapalooza Brasil traga bandas legais, o valor do ingresso médio é muito alto e funciona pelo fato de ser uma turnê pelas edições sul-americanas.

O relato da Pitchfork, apesar de algumas meias-verdades, serve para refletir sobre o mercado brasileiro de shows, às vezes, ruim em comparação até mesmo ao dos vizinhos. Espero que isso mude com o tempo, porque estamos sendo ultrapassados por Chile e Argentina, e até a Colômbia se fortaleceu nos últimos dois anos. Paul Di'Anno pode vir quantas vezes ele quiser, mas está na hora de mais. Muito mais.

O texto original está aqui e tem uma tradução aqui.