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segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Entrevista: Luiz Mazetto

Foto: Luiz Mazetto e Fabio Massari/Arquivo Pessoal


Edição e colaboração: Fagner Morais

Luiz Mazetto é paulistano, formado em jornalismo e o autor do livro Nós Somos a Tempestade, sua estreia como escritor, lançado pela Edições Ideal na Coleção Mondo Massari – organizada por Fabio Massari, uma das referências do jornalismo musical. A publicação traz um tema nunca antes tratado no Brasil: a cena do metal alternativo/underground dos Estados Unidos, principalmente nos últimos 20 anos. Mais de 25 entrevistas são mencionadas, entre elas estão Black Flag, Melvins, Neurosis, Eyehategod, Mastodon, Down, Isis e Baroness.

Convidado pelo blog, Mazetto respondeu algumas perguntas sobre seu livro, o mercado editorial brasileiro e seus discos favoritos. Além, claro, de falar sobre música.

Music on the Run: O mercado editorial vem vivenciando um boom de biografias e livros sobre músicos, bandas e períodos importantes. Como você vê isso?

Luiz: Acho que é essencial ter esses registros, tanto pelo lado dos fãs como também por serem objetos de pesquisa – que me fizeram falta na hora de fazer o livro justamente. No Brasil, esse mercado ainda parece estar um pouco atrás, pelo simples fato de existirem menos editoras voltadas para isso em comparação com os Estados Unidos, por exemplo. Aí acontecem casos como o livro do Ian Christe (Sound of the Beast) sair por aqui em uma edição muito estranha, no mínimo, já que não foi uma editora especializada que lançou – o que infelizmente ainda acontece com ótimos livros, como a biografia do Tony Iommi (guitarrista do Black Sabbath). Mas acho que o momento é certamente o melhor da última década, com o público mostrando interesse e algumas editoras bacanas focando esforços nisso da melhor maneira.

Recentemente, André Forastieri reclamou das poucas páginas de livros lançados há pouco tempo. Isso é uma mostra que as editoras ainda veem dificuldades de lucro nesse tipo de livro ou o medo de processos ainda é um fator determinante para essa timidez?

Olha, não sei até onde isso é verdade para o mercado geral, talvez algumas editoras. Pego a Edições Ideal como exemplo, que lançou no ano passado o Mondo Massari, de Fabio Massari, que tem umas 500 páginas de artigos e entrevistas sobre bandas desconhecidas em sua maioria. Ou a biografia do Sabbath lançada pela Darkside por aqui, que é linda e gigante. O lance dos processos infelizmente ainda é verdade quanto aos artistas nacionais, mas parece influenciar mais no sentido de já minar o projeto de cara – o que não deixa de ser uma merda.

Quais são as dificuldades para se fazer um livro desse tipo e lançá-lo no Brasil?

Inicialmente, tinha a ideia de lançar o livro de forma independente. Felizmente isso mudou quando o Massari entrou e quis lançar o livro, levando o projeto para a Ideal. Confesso que não tive nenhum tipo de dificuldade específica, até porque a equipe da Ideal é ótima e me ajudou bastante. Óbvio que o orçamento para um livro desse tipo nunca vai ser igual ao da biografia de um artista popular, mas até aí sem problema nenhum. Acho que a editora foi muito corajosa também em apostar num livro desses e de um autor desconhecido, que é o meu caso.

Como surgiu a ideia de criar o livro? E quando você lançou o projeto ao Fabio Massari?

A ideia surgiu mesmo no fim de 2012, em uma conversa com a minha namorada e um amigo. Já tinha uma ideia nessa linha, uma vez que tinha algumas entrevistas feitas desde 2010, mas foi nessa conversa que meio que decidi isso. Só fui levar o projeto para o Massari no fim de 2013, quando já estava bastante adiantado – mas ainda fiz umas 10 entrevistas depois disso.

Sobre a escolha das bandas entrevistadas, algumas foram por gosto pessoal? E quais ainda poderiam ter entrado?

Ah, com certeza algumas foram por gosto - por exemplo, o Oxbow, o Cave In, o Grief e o Coliseum, que são bandas ótimas, mas com menos apelo ao público, talvez. Tanto que algumas pessoas vieram falar que passaram a dar atenção para elas por causa do livro, o que me deixa muito feliz, e foi a razão para fazer isso tudo em primeiro lugar. Penso que nomes como Kyuss e YOB, que entrevistei depois do livro ficar pronto, ou até mesmo Sleep e High on Fire, encaixariam muito bem. Quem sabe num segundo volume sobre mais bandas dos EUA?

Qual o motivo da maioria do púbico fã de metal tradicional não demonstrar interesse em bandas como o Neurosis?

Não sei precisar isso, talvez pelo som mais experimental, talvez pela postura e pelo visual meio “antimetal”. Provavelmente pelas duas coisas juntas e também pela falta de cobertura que esse estilo, o metal alternativo, historicamente nunca recebeu na mídia especializada, de forma geral, e mais especificamente aqui. Muitas das bandas do livro nunca tinham dado entrevista para o Brasil até então.

Você acredita que essa cena norte-americana será tão lembrada e influente no futuro como a New Wave Of British Heavy Metal?

Olha, espero que seja lembrada e vista como uma cena importante e necessária, ainda que possa ter uma importância diferente de outras, dependendo da pessoa e sua formação, obviamente. Um dos objetivos de fazer um livro assim, um registro, é tentar ressaltar a importância de um movimento – tanto que existem documentários sobre isso, que estão no livro, inclusive. Acho que saindo um livro sobre isso nos Estados Unidos, por exemplo, ajudaria a essa cena ter um reconhecimento ainda maior. Mas penso que isso vem mudando nos últimos anos, principalmente por causa da internet, MP3 e tudo mais, além de veículos como a Decibel, que dão espaço para essas bandas, inclusive nas suas capas.

O livro traz bandas com muitas distinções, mas há um elo que une Melvins, Converge, Mastodon e Isis, por exemplo. Podemos afirmar que esse elo seria uma inquietação criativa ou uma perspectiva bem ampla sobre a música? 

As duas coisas que você citou, além de uma postura mais ligada ao hardcore e ao “faça você mesmo”, na música e na atitude, respectivamente. Também vale lembrar que existe um senso de irmandade muito grande entre essas bandas, não importando de que época, lugar ou subgênero elas vêm. Existe um sentimento palpável de fazer parte de algo maior, em que o amor por fazer aquilo em que você acredita, sem pensar em mercado, é sempre o mais importante, sem medo de errar.

Eu achei a mente do Kirk Lloyd, guitarrista e vocalista do Buzzoev-en, fascinante e perturbada, e deve ter sido algo bem intenso ouvir tudo aquilo dele por telefone. Qual foi a experiência durante e após essa entrevista?

Conheci o Kirk rapidamente em 2011, antes do show do Buzzov-en no Maryland Deathfest. Falamos um pouco, disse que era do Brasil e ele até me deu um boné da banda. Fui entrevistá-lo no fim de 2013 só e obviamente que, mediante a quantidade de substâncias que ele ingere, nem lembrava do nosso encontro. De qualquer forma, ele se mostrou muito aberto desde o início e é uma das minhas entrevistas favoritas, além da maior, já que foram quase três horas de conversa. Posso dizer que é um dos caras mais honestos que já entrevistei, além de ter uma risada que você reconhece em qualquer lugar.

Você certamente ouviu o novo álbum do Eyehategod, que é uma das mais importantes bandas dessa cena. O que você achou do primeiro registro deles após longos 15 anos?

Acho que não parece que se passou todo esse tempo, o disco é exatamente o que esperava deles, até com uma pegada mais punk do que no Confederacy..., último trabalho deles até então. Dito isso, penso que é um ótimo disco, ainda que fique atrás do Take as Needed for Pain, que tem uma urgência e uma sujeira sem iguais.

Eu comentei com você esses dias que seria ótimo ler algo semelhante sobre o Electric Wizard e outras bandas fora dos limites dos EUA. Existe a possibilidade de um Nós Somos a Tempestade 2 ou de algo nos mesmos moldes musicais?

A possibilidade está aí, né? (risos) Estou fazendo algumas entrevistas com bandas dessa cena, mas de fora dos EUA, que acho que seria uma continuação natural. Mas ainda é um projeto, em estágio inicial. No começo de 2015 devo ter mais novidades e uma ideia melhor do que e como vai rolar.

Para finalizar, uma pergunta que você fez para a maioria dos seus entrevistados no livro: quais os três discos que mudaram a sua vida e por que eles fizeram isto?

Led Zeppelin – Led Zeppelin II (1969)

Clichê, né? Mas enfim, na época, com dez anos de idade, já conhecia a banda e gostava, mas a primeira vez que ouvi aquela crescida da “Thank You” com a bateria absurda do John Bonham, numa manhã de domingo chuvosa em Araras, interior de São Paulo, foi definitivamente um ponto de virada na minha vida.

Sepultura – Chaos A.D. (1993)

Foi o primeiro disco que ouvi dos caras. Com certeza me marcou muito e é influência até hoje no meu jeito de tocar, com riffs mais simples e diretos. Se já era um disco inovador por tantas coisas pra quem já ouvia música há muito tempo, imagina pra um moleque de onze anos que tava começando a descobrir o lado mais pesado do metal.

Neurosis – The Eye Of Every Storm (2004)

Comecei a ouvir o Neurosis por causa do tão conhecido CD do primeiro Ozzfest, em 1997, eu acho, mas só fui entender a banda de verdade quando estava no primeiro ano da faculdade, em 2004, justamente com o The Eye Of Every Storm, que pode não ser o melhor disco deles, mas foi a porta de entrada sem volta pra uma banda que mudou a minha vida como poucas, e com certeza é um dos trampos mais subestimados deles. Sério, a trinca “Left to Wander”, “Shelter” e “A Season in the Sky” é de chorar.

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