sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Hora de descansar, Malcolm Young


Não é de hoje que existe o papo de que uma banda precisa de alguém que segure as rédeas e controle os movimentos. Pensar como um empresário fez do Metallica – liderado por Lars Ulrich – um exemplo de como é possível chegar ao topo e perceber que é sempre possível fazer mais um pouco para atingir patamares inimagináveis para um grupo que começou fazendo trash metal e, hoje, consegue tocar no famoso festival inglês Glastonbury.

Mas muito antes de o Metallica aparecer com esse modelo, o AC/DC já fazia isso uma década antes. Fundado pelos irmãos Malcolm e Angus Young, a banda australiana conseguiu atingir tanta gente nos anos 1970, que chegou no auge com dois vocalistas diferentes em menos de um ano – Bon Scott morreu durante o sucesso de Highway to Hell. Seu substituto, Brian Johnson, gravou Back in Black, disco mais vendido da história deles até hoje. Tudo isso, graça aos irmãos Young - em boa parte, Malcolm. Claro, colocar todo sucesso na conta de Malcolm é tirar o mérito das boas sacadas de Angus na guitarra e também na administração, o baixo discreto e eficiente de Cliff Williams e a bateria compassada de Phil Rudd.


Vamos aos exemplos mais evidentes: o uniforme de Angus no palco, as canções sempre feitas em alto e bom tom, a simplicidade ao tocar. Como não gostar de AC/DC? E daí que todos os discos são praticamente iguais? E daí que eles estão na casa dos 60 anos e seguem tocando as mesmas músicas? Eles atingiram um nível tão impressionante que discussões sobre a musicalidade e originalidade ficaram em segundo plano. Não existe outro AC/DC, eles são reconhecidos pelos riffs. E parte desse mérito está na conta do guitarra base Malcolm.

Outro ponto para ser exaltado é a entrega deles aos fãs – ou consumidores. No livro A Cabeça de Steve Jobs, Leander Kahney conta que o ex-CEO da Apple era um tirano quando queria criticar alguém, mas sabia agradar quando precisava. Um dos pontos que chama atenção é saber que Jobs não entendia nada de programação de computadores, porém era um curioso nato com produtos, design e pela simplicidade das coisas. Quando fazia um teste de algum computador ou celular e percebia que era muito difícil, ele rapidamente reunia o departamento responsável e pedia mudanças para agradar ao público consumidor. Seguindo esse exemplo, eles se tornaram uma das marcas mais conhecidas do mundo musical ao ir pelo caminho da simplicidade. É muito difícil não reconhecer um produto, disco ou qualquer coisa relacionada.

A postura deles fora do palco também chama atenção. Não por escândalos ou qualquer coisa do tipo, ao contrário. Eles sempre foram discretos, principalmente nos últimos anos. É raro ver qualquer comentário deles em sites de fofoca ou similares.

De acordo com o noticiário de hoje, Malcolm foi internado em uma clínica e seu estado mental é grave – ele está com demência, segundo alguns sites. Depois de 40 anos dedicados ao seu trabalho, seja como guitarrista ou administrador, chegou a hora, ainda que forçada, de descansar. Uma pena que tenha que ser assim.

Valeu por tudo, Malcolm. Descansa, cara.